
Artigo original escrito por Ronald W. Kirk


A Universidade Presbiteriana Mackenzie vem recebendo ataques e críticas por um texto alegadamente “homofóbico” veiculado em seu site desde 2007. Nós, de várias denominações cristãs, vimos prestar solidariedade à instituição. Nós nos levantamos contra o uso indiscriminado do termo “homofobia”, que pretende aplicar-se tanto a assassinos, agressores e discriminadores de homossexuais quanto a líderes religiosos cristãos que, à luz da Escritura Sagrada, consideram a homossexualidade um pecado. Ora, nossa liberdade de consciência e de expressão não nos pode ser negada, nem confundida com violência. Consideramos que mencionar pecados para chamar os homens a um arrependimento voluntário é parte integrante do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nenhum discurso de ódio pode se calcar na pregação do amor e da graça de Deus.
Como cristãos, temos o mandato bíblico de oferecer o Evangelho da salvação a todas as pessoas. Jesus Cristo morreu para salvar e reconciliar o ser humano com Deus. Cremos, de acordo com as Escrituras, que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Somos pecadores, todos nós. Não existe uma divisão entre “pecadores” e “não-pecadores”. A Bíblia apresenta longas listas de pecado e informa que sem o perdão de Deus o homem está perdido e condenado. Sabemos que são pecado: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, rivalidades, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias” (Gálatas 5.19). Em sua interpretação tradicional e histórica, as Escrituras judaico-cristãs tratam da conduta homossexual como um pecado, como demonstram os textos de Levítico 18.22, 1Coríntios 6.9-10, Romanos 1.18-32, entre outros. Se queremos o arrependimento e a conversão do perdido, precisamos nomear também esse pecado. Não desejamos mudança de comportamento por força de lei, mas sim, a conversão do coração. E a conversão do coração não passa por pressão externa, mas pela ação graciosa e persuasiva do Espírito Santo de Deus, que, como ensinou o Senhor Jesus Cristo, convence “do pecado, da justiça e do juízo” (João 16.8).
Queremos assim nos certificar de que a eventual aprovação de leis chamadasanti-homofobia não nos impedirá de estender esse convite livremente a todos, um convite que também pode ser recusado. Não somos a favor de nenhum tipo de lei que proíba a conduta homossexual; da mesma forma, somos contrários a qualquer lei que atente contra um princípio caro à sociedade brasileira: a liberdade de consciência. A Constituição Federal (artigo 5º) assegura que “todos são iguais perante a lei”, “estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença” e “estipula que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Também nos opomos a qualquer força exterior – intimidação, ameaças, agressões verbais e físicas – que vise à mudança de mentalidades. Não aceitamos que a criminalização da opinião seja um instrumento válido para transformações sociais, pois, além de inconstitucional, fomenta uma indesejável onda de autoritarismo, ferindo as bases da democracia. Assim como não buscamos reprimir a conduta homossexual por esses meios coercivos, não queremos que os mesmos meios sejam utilizados para que deixemos de pregar o que cremos. Queremos manter nossa liberdade de anunciar o arrependimento e o perdão de Deus publicamente. Queremos sustentar nosso direito de abrir instituições de ensino confessionais, que reflitam a cosmovisão cristã. Queremos garantir que a comunidade religiosa possa exprimir-se sobre todos os assuntos importantes para a sociedade.
Manifestamos, portanto, nosso total apoio ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil publicado no ano de 2007 e reproduzido parcialmente, também em 2007, no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie, por seu chanceler, Reverendo Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Se ativistas homossexuais pretendem criminalizar a postura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, devem se preparar para confrontar igualmente a Igreja Presbiteriana do Brasil, as igrejas evangélicas de todo o país, a Igreja Católica Apostólica Romana, a Congregação Judaica do Brasil e, em última instância, censurar as próprias Escrituras judaico-cristãs. Indivíduos, grupos religiosos e instituições têm o direito garantido por lei de expressar sua confessionalidade e sua consciência sujeitas à Palavra de Deus. Postamo-nos firmemente para que essa liberdade não nos seja tirada.
Este manifesto é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.
Para ampla divulgação.

NO DIA 31 DE OUTUBRO DE 1517, HÁ 493 ANOS ATRÁS, UM MONGE AGOSTINIANO CHAMADO MARTINHO LUTERO AFIXA SUAS 95 TESES NA PORTA DA IGREJA DE WITTENBERG, ALEMANHA, PROTESTANDO CONTRA A VENDA DE INDULGÊNCIAS QUE OBJETIVAVA LEVANTAR FUNDOS PARA A CONSTRUÇÃO, EM ROMA, DA BASÍLICA DE SÃO PEDRO.
ESSA DATA TORNOU-SE UM MARCO NA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO, SENDO COMEMORADA, A CADA ANO, COMO O DIA DA REFORMA.
MAS COMO TUDO ISSO COMEÇOU?
10 DE NOVEMBRO DE 1483 – NASCE MARTINHO LUTERO, NA PEQUENA CIDADE DE EISLEBEN, NUMA FAMÍLIA DE ORIGEM CAMPONESA MAS QUE VIVIA DO TRABALHO NAS MINAS DE COBRE. EDUCADO SOB A DURA DISCIPLINA DAQUELA ÉPOCA, CERTA VEZ APANHOU DE SUA MÃE ATÉ SANGRAR POR TER ROUBADO UMA NOZ. EM SUA ESCOLA, LEVOU 15 CHIBATADAS POR NÃO CONSEGUIR DECLINAR UM VERBO EM LATIM.
A ALEMANHA DAQUELE PERÍODO ENFRENTAVA DESOLAÇÕES E INÚMERAS DOENÇAS. A PESTE BUBÔNICA CEIFAVA INÚMERAS VIDAS, MATANDO CIDADES INTEIRAS. UM QUARTO DA POPULAÇÃO INFANTIL MORRIA ANTES DOS 05 ANOS DE IDADE.
SOMENTE HAVIA UM CONSOLO: A IGREJA E SUA PROMESSA DE UM PARAÍSO.
TAL PROMESSA HAVIA TRANSFORMADO A IGREJA NA INSTITUIÇÃO MAIS PODEROSA DO MUNDO. MAIS RICA DO QUE OS REIS, MAIS PODEROSA DO QUE OS IMPERADORES – MAS TAMBÉM TIRÂNICA E DESESPERADAMENTE CORRUPTA.
A GRANDE QUESTÃO PARA O HOMEM DAQUELES TEMPOS ERA: “COMO POSSO SER SALVO?”. LUTERO TAMBÉM VIVIA ANGUSTIADO COM ESSA QUESTÃO. JESUS CRISTO ERA APRESENTADO COMO UM JUIZ TERRÍVEL, PRONTO PARA ABATER COM SUA ESPADA OS PECADORES. O ÚNICO CAMINHO SEGURO ERA APROVEITAR TODOS OS RECURSOS QUE A IGREJA OFERECIA – SACRAMENTOS, PENITÊNCIAS, INDULGÊNCIAS, PEREGRINAÇÕES, A INTERCESSÃO DOS SANTOS, ETC – PARA TENTAR OBTER A SALVAÇÃO E A VIDA ETERNA. COMO MUITOS OUTROS EM SEU TEMPO, LUTERO EXPERIMENTAVA VIVIDAMENTE O “TERROR AO SAGRADO”.
ESTUDIOSO DEDICADO, EM 1502 ELE RECEBE O GRAU DE BACHAREL EM ARTES E EM 1505 O DE MESTRE EM ARTES. SEU PAI DETERMINARA QUE ELE DEVERIA ESTUDAR DIREITO, MAS EM JULHO DE 1505, DURANTE UMA VIAGEM, FOI SURPREENDIDO À NOITE POR UMA TERRÍVEL TEMPESTADE. RELÂMPAGOS RISCAVAM O AR. UM RAIO CAIU A POUCOS METROS DE LUTERO, LANÇANDO-O AO CHÃO. PROSTRADO DE JOELHOS, CLAMOU: “SANTA ANA, AJUDE-ME! SE ME SALVARES, TORNAR-ME-EI MONGE!”
O HOMEM QUE ASSIM INVOCAVA UMA SANTA MAIS TARDE REJEITARIA O CULTO AOS SANTOS. AQUELE QUE ACABAVA DE PROMETER TORNAR-SE MONGE MAIS TARDE RENUNCIARIA AO MONASTICISMO. LEAL FILHO DA IGREJA CATÓLICA, MAIS TARDE ABALARIA AS BASES DO CATOLICISMO. SERVO DEVOTO DO PAPA, MAIS TARDE IDENTIFICARIA OS PAPAS COM O PRÓPRIO ANTICRISTO.
TRÊS SEMANAS DEPOIS MARTINHO LUTERO ENTROU NO MOSTEIRO DA ORDEM DE SANTO AGOSTINHO EM ERFURT. EM 1507 FOI ORDENADO MONGE E NO MESMO ANO CELEBROU SUA PRIMEIRA MISSA. AQUELA MISSA FOI UMA EXPERIÊNCIA EXCRUCIANTE PARA LUTERO, ATERRORIZADO POR ESTAR DIANTE DA DIVINDADE – ELE, UM PECADOR, OUSAVA CONSAGRAR A HÓSTIA SAGRADA! NAQUELE TEMPO CRIA-SE QUE O HÁBITO DE MONGE ERA UM “SEGUNDO BATISMO” QUE PERDOAVA OS PECADOS; LUTERO, PORÉM, NÃO CONSEGUIA AQUIETAR SUA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA, QUE O ACUSAVA DIANTE DO DEUS TERRÍVEL DE SANTIDADE E JUSTIÇA. JEJUAVA POR VÁRIOS DIAS SEGUIDOS, SE AUTO-FLAGELAVA, PRATICAVA INÚMERAS PENITÊNCIAS, MAS SEMPRE E SEMPRE CONTINUAVA SENTINDO A MANCHA TERRÍVEL DO PECADO EM SUA CONSCIÊNCIA. “COMO POSSO SER SALVO?” ERA DEVOTO DE VÁRIOS SANTOS: CONFESSAVA-SE POR MAIS DE SEIS HORAS SEGUIDAS, REMOENDO CADA PEQUENO DETALHE DE SEUS ATOS E PENSAMENTOS, EM BUSCA DE PERDÃO. COMO UM HOMEM PODERIA SUPORTAR A PRESENÇA DE DEUS, A MENOS QUE FOSSE SANTO?
EM 1510-1511 SUA ORDEM O ENVIOU A ROMA A NEGÓCIOS. LÁ ELE TESTEMUNHOU A CORRUPÇÃO E A LUXÚRIA DA IGREJA ROMANA. FICOU CHOCADO COM A LEVIANDADE E IMORALIDADE DOS SACERDOTES ROMANOS. ELES PRÓPRIOS COSTUMAVAM DIZER QUE “SE EXISTE UM INFERNO, ROMA ESTÁ CONSTRUÍDA SOBRE ELE”.
EM 1511 LUTERO FOI TRANSFERIDO PARA A UNIVERSIDADE DE WITTENBERG. SEU LÍDER ESPIRITUAL, STAUPITZ, ACREDITAVA QUE LUTERO PODERIA VENCER SEUS MEDOS CASO ESTUDASSE A BÍBLIA, E EM WITTENBERG PRECISAVAM DE UM PROFESSOR. AO ENTRAR EM CONTATO COM AS ESCRITURAS, A FIM DE PREPARAR SUAS AULAS, LUTERO DEPAROU-SE COM A AFIRMAÇÃO DE PAULO EM ROMANOS 1.17: “O JUSTO VIVERÁ PELA FÉ”. ISSO O CONVENCEU DE QUE SOMENTE PELA FÉ EM CRISTO ALGUÉM PODE TORNAR-SE JUSTO DIANTE DE DEUS. O ESTUDO DA BÍBLIA O LEVOU A CRER SOMENTE EM CRISTO PARA A SUA SALVAÇÃO.
EM 1517 O MONGE DOMINICANO TETZEL COMEÇA A VENDER INDULGÊNCIAS NA ALEMANHA, PARA SUPRIR O PAPA LEÃO X DE RECURSOS A FIM DE PAGAR A GIGANTESCA SOMA DE DINHEIRO QUE ELE HAVIA EMPRESTADO AOS BANQUEIROS ALEMÃES FUGGER. LEÃO X QUERIA CONSTRUIR A BASÍLICA DE SÃO PEDRO, E QUERIA QUE A MESMA FOSSE MAIOR E MAIS PORTENTOSA DO QUE O ANTIGO PARTENON GREGO. TETZEL AFIRMAVA QUE AS INDULGÊNCIAS PODERIAM PERDOAR QUAISQUER PECADOS E QUE A CRUZ ERGUIDA COM O BRASÃO DE LEÃO X TINHA O MESMO PODER QUE A PRÓPRIA CRUZ DE CRISTO. ELE AFIRMAVA: “NO INSTANTE EM QUE UMA MOEDA TILINTA NO FUNDO DO COFRE, UMA ALMA ESCAPA DO PURGATÓRIO!”
AQUILO FOI DEMAIS PARA O RECÉM-CONVERTIDO MARTINHO LUTERO. EM 31 DE OUTUBRO DE 1517 ELE AFIXA 95 TESES NA PORTA DA IGREJA DE WITTENBERG. NELAS, EM LATIM, CONDENA O SISTEMA DE INDULGÊNCIAS E DESAFIA A TODOS PARA UM DEBATE SOBRE O ASSUNTO. A TRADUÇÃO PARA O ALEMÃO E A PUBLICAÇÃO DAS 95 TESES ACABAM POR TIRAR A DISCUSSÃO DO AMBIENTE ACADÊMICO E PRECIPITAR OS ACONTECIMENTOS.
EM JULHO DE 1519 LUTERO É CONVOCADO PARA DEBATER COM O REPRESENTANTE PAPAL, JOHN ECK. SOBREVIVE GRAÇAS AO APOIO DA NOBREZA ALEMÃ, PARTICULARMENTE DO PRÍNCIPE FREDERICO, ELEITOR DA SAXÔNIA E RESPONSÁVEL PELA UNIVERSIDADE DE WITTENBERG.
EM 1520 PUBLICA SUAS OBRAS APELO À NOBREZA GERMÂNICA, O CATIVEIRO BABILÔNICO E SOBRE A LIBERDADE DO HOMEM CRISTÃO. EM JUNHO O PAPA LEÃO X PROMULGOU A BULA EXSURGE DOMINE, QUE RESULTOU NA EXCOMUNHÃO DE LUTERO. AS OBRAS DE LUTERO SÃO QUEIMADAS EM ROMA. LUTERO QUEIMA A BULA PAPAL NA ALEMANHA.
EM NOVO CONCÍLIO, EM 1521, LUTERO NOVAMENTE RECUSA A RETRATAR-SE. LEVADO POR SEUS AMIGOS, CONTRA A SUA VONTADE, PARA O CASTELO WARTBURG, ONDE PERMANECEU ESCONDIDO ATÉ 1522, LUTERO ESCAPOU DA FÚRIA ASSASSINA DA IGREJA ROMANA.
EM SEU EXÍLIO EM WARTBURG LUTERO TRADUZIU A BÍBLIA PARA O ALEMÃO, A FIM DE QUE O POVO FINALMENTE TIVESSE ACESSO ÀS ESCRITURAS. ENQUANTO ISSO, SEUS ALIADOS NÃO PERDIAM TEMPO, LEVANDO ADIANTE A OBRA DA REFORMA. EM 1521 SAI A PUBLICAÇÃO DA OBRA LOCI COMMUNES, DE PHILLIPPE MELANCHTON. NELA, MELANCHTON REJEITOU A AUTORIDADE DA IGREJA ROMANA E DOS CONCÍLIOS, ESTABELECENDO ACIMA DE TODOS A BÍBLIA COMO AUTORIDADE FINAL PARA OS CRISTÃOS.
A BÍBLIA ALEMÃ DE LUTERO FOI FINALMENTE PUBLICADA EM 1534. FOI A PRIMEIRA BÍBLIA NO VERNÁCULO DO POVO ALEMÃO, E SERVIU DE MARCO PARA A PADRONIZAÇÃO DA LÍNGUA.
NA ESTEIRA DE LUTERO VIRIAM OUTROS REFORMADORES, COMO ULRICH ZWINGLIO E JOÃO CALVINO (AMBOS NA SUÍÇA), JOHN KNOX (NA ESCÓCIA) E OUTROS. DEPOIS VIRIAM OS ANABATISTAS E SUA REFORMA RADICAL, CUJO LÍDER DE UM DOS PRINCIPAIS GRUPOS FOI MENNO SIMMONS (OS MENONITAS TÊM ESSE NOME EM HOMENAGEM A ELE).
LOGO A REFORMA ESPALHOU-SE POR OUTROS PAÍSES DA EUROPA, COMO HOLANDA E MESMO A INGLATERRA, ONDE POR QUESTÕES MERAMENTE PESSOAIS O REI HENRIQUE VIII ROMPEU COM O PAPA E TORNOU-SE O CHEFE DA IGREJA INGLESA, DANDO ORIGEM AO ANGLICANISMO.
E NA HOLANDA DO SÉCULO XVII, UM GRUPO DE REFUGIADOS INGLESES DEU INÍCIO A UM MOVIMENTO DE FÉ QUE DARIA ORIGEM, POSTERIORMENTE, À IGREJA BATISTA. OS PRIMEIROS BATISTAS A PRATICAR O BATISMO POR IMERSÃO FORAM OS BATISTAS REFORMADOS (CALVINISTAS) INGLESES, QUE SE CONGREGARAM A PARTIR DE 1633.
OS PRINCÍPIOS DA REFORMA (CINCO SOLAS):
SOLA FIDE – SOLA GRATIA – SOLA SCRIPTURA – SOLUS CHRISTUS
SOLI DEO GLORIA
(SOMENTE A FÉ – SOMENTE A GRAÇA – SOMENTE AS ESCRITURAS
SOMENTE CRISTO – GLÓRIA SOMENTE A DEUS)
O Rev. Richard Wurmbrand foi ministro do Evangelho e passou quatorze anos como prisioneiro dos comunistas, torturado em sua própria terra, a Romênia. Os guardas tentaram forçá-lo a confessar que pertencia a uma rede de espionagem imperialista, foi açoitado, torturado e obrigado a ingerir drogas. Apesar de tudo ele resistiu e ficou firme. Passou dois anos na “cela da morte” – assim chamada por não ter voltado ninguém dali com vida..jpg)
1 – A NECESSIDADE DA INTERPRETAÇÃO
O propósito da interpretação bíblica não é “descobrir” algo que “ninguém tinha percebido antes”.
O propósito da interpretação bíblica é chegar ao significado simples do texto. O ingrediente mais comum nessa tarefa é o senso comum iluminado pelo Espírito Santo. A boa interpretação dá bom sentido ao texto. A prova da boa interpretação é a paz que ela confere à mente e o consolo que fornece ao coração.
Todo leitor é um intérprete. Ao ler um texto, naturalmente pensamos que entendemos o mesmo. Mas será que o entendemos do modo como o escritor original desejava que fosse entendido? Estamos separados por mais de dois mil anos dos autores bíblicos. Além disso, lemos traduções da Bíblia, e toda tradução é uma interpretação.
Ao aproximar-nos de um texto, geralmente trazemos a ele tudo o que somos: nossas ideias, opiniões, preconceitos, enfim, toda a nossa visão de mundo e cultura. Algumas vezes isso nos faz colocar no texto coisas totalmente alheias a ele.
Algumas das mais terríveis heresias surgiram da interpretação errônea da Bíblia. Por exemplo, as pseudoigrejas que atualmente pregam o chamado “evangelho da prosperidade” afirmam encontrar “base bíblica” para seus ensinos em textos (como 3Jo 2, por exemplo) que nada têm a ver com prosperidade financeira.
George Ladd, teólogo batista, declarou certa vez: “A Bíblia é a Palavra de Deus dada em palavras humanas dentro da História”. A natureza da Bíblia – e o modo como a encaramos – também influencia na sua interpretação. Há os que se aproximam da Bíblia como texto sagrado, e há aqueles que se aproximam dela como um livro meramente humano, um livro religioso como outro qualquer.
Como Palavra de Deus, escrita por seres humanos, a Bíblia tem, simultaneamente, relevância eterna e particularidades históricas. O bom intérprete bíblico precisará lidar com essa tensão.
No tocante ao “lado humano” da Bíblia, há dois fatores que precisamos levar em conta no processo de interpretação:
1º. Ao falar através de pessoas reais, numa variedade de circunstâncias, durante um período de 1500 anos, a Palavra de Deus foi expressa no vocabulário e nos padrões de pensamento daquelas pessoas e foi condicionada pela sua cultura, seus tempos e suas circunstâncias. Por isso precisamos, em primeiro lugar, aprender o que a Palavra significava para seus ouvintes originais. Devemos compreender o que foi dito a eles em seu tempo e lugar; para depois aplicar seus princípios em nosso tempo e lugar.
2º. A Bíblia faz uso de uma profusão de gêneros literários diferentes: narrativa histórica, genealogias, crônicas, leis, poesia, provérbios, oráculos proféticos, parábolas, cartas, sermões, etc. É preciso levar em consideração as regras de interpretação apropriadas para cada gênero literário, e o modo como Deus os utiliza para falar conosco hoje. Por exemplo, um Salmo, que foi escrito para falar com Deus, é diferente de uma porção da Lei, que foi escrita para dirigir-se aos homens. Hoje, porém, devemos aplicar ambos em nossas vidas, e aplicá-los corretamente.
2 – AS TAREFAS DO INTÉRPRETE
2.1. PRIMEIRA TAREFA: EXEGESE
Exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir seu sentido original. É fundamentalmente uma tarefa histórica. É a tentativa de ouvir a Palavra de Deus da mesma forma como a ouviram seus destinatários originais, encontrando assim a intenção original das palavras da Bíblia. Essa tarefa normalmente requer a ajuda de um pesquisador que conheça os idiomas originais da Bíblia, porém, seguindo certos passos, mesmo pessoas leigas podem fazer uma exegese.
De certo modo todos são exegetas. A questão é se são bons ou maus exegetas.
Num nível mais elevado, a exegese requer o conhecimento dos idiomas bíblicos; das culturas semítica, judaica e helenista; a determinação do texto original quando os manuscritos apresentam várias versões; o uso de todo tipo de fontes, recursos e instrumentos. No entanto, pode-se aprender a fazer exegese mesmo sem ter acesso a todas essas habilidades e ferramentas. Para tanto, deve-se primeiramente aprender o que cada um pode fazer com suas próprias habilidades. Em segundo lugar, deve-se aprender a utilizar o trabalho de outros.
A chave para uma boa exegese, e para uma leitura eficaz da Bíblia, é ler o texto com atenção e fazer as perguntas apropriadas a cada texto.
Há dois tipos fundamentais de perguntas que o leitor deve fazer: as que se referem ao contexto e as que se referem ao conteúdo. As perguntas de contexto dividem-se em duas categorias: históricas e literárias.
Perguntas de contexto.
Contexto histórico. Deve-se levar em conta a época e a cultura do autor e de seus leitores (nem sempre serão as mesmas); aspectos geográficos e políticos; a ocasião em que o texto (salmo, profecia, epístola, etc) foi escrito. Exemplo: história pessoal de Amós, Oséias, Isaías; a situação histórica na época de Ageu; as esperanças messiânicas de Israel nos ministérios de João Batista e Jesus; as características de cidades como Corinto e Filipos; etc.
Há recursos que podem fornecer ajuda para responder a essas questões: dicionários bíblicos, comentários, manuais bíblicos, livros sobre a história bíblica, entre outros.
As perguntas mais importantes no contexto histórico, no entanto, são as que se referem à ocasião e ao propósito de cada livro bíblico. Bons comentários e manuais bíblicos podem ser muito úteis neste caso, bem como algumas Bíblias de estudo.
Contexto literário. As palavras somente têm significado dentro das frases em que se encontram, e as frases, dentro das orações mais longas em que se encontram (parágrafos, trechos), e estas orações mais longas, por sua vez, encontram seu significado de acordo com as orações que as antecedem e que as sucedem. É isso o que as pessoas querem dizer quando falam de ler algo dentro de seu contexto.
As perguntas mais importantes que devemos fazer no contexto literário, em cada frase e em cada parágrafo, é: “Qual é o propósito? Qual a finalidade?”. Devemos seguir o pensamento do autor. O que o autor está dizendo, e por que está dizendo isso, em certo momento ou lugar? Depois de encontrar a resposta, questionar: O que o autor dirá a seguir? Essas sempre serão perguntas decisivas, fundamentais para a compreensão do texto bíblico. Afinal, o objetivo da exegese é descobrir a intenção original do autor. Para realizar essa tarefa, é imprescindível o uso de uma boa tradução da Bíblia, que reconheça os diferentes gêneros literários, que mostre claramente os parágrafos de uma narrativa, que saiba reconhecer uma poesia. Uma tradução da Bíblia que utiliza um parágrafo para cada versículo deve ser evitada. (Um bom exemplo de tradução que reconhece parágrafos e poesia é a Nova Versão Internacional [NVI]. Muitas pessoas nem ao menos sabem que tipo de tradução da Bíblia estão utilizando. Um leitor consciente deve conhecer as características das diversas traduções e versões bíblicas disponíveis no mercado, e então escolher a que melhor se encaixa em seu perfil e em suas necessidades. O ideal é possuir o maior número possível de versões bíblicas.)
Perguntas de conteúdo.
São as que se referem ao significado das palavras, às relações gramaticais, à seleção do texto original quando há várias versões nos manuscritos. Também leva-se em consideração perguntas referentes ao contexto histórico, como por exemplo: o significado de termos e expressões como denário, viagem de um dia de sábado, lugares altos, etc.
Para isso novamente precisaremos de ajuda externa. Um bom dicionário bíblico, ou exegético, é fundamental. Comentários bíblicos também podem ser utilizados, mas com cautela. É preciso saber reconhecer os bons autores de escritores medíocres, ou de autores que seguem linhas teológico-doutrinárias questionáveis. Há quatro recursos ou instrumentos indispensáveis para uma exegese: dicionários bíblicos, um bom Manual bíblico, boas traduções da Bíblia e bons comentários bíblicos, escritos por autores confiáveis.
2.2. SEGUNDA TAREFA: HERMENÊUTICA
A hermenêutica cobre todo o campo da interpretação, incluindo a exegese. Porém, aqui, usaremos o termo hermenêutica de modo mais restritivo, significando a busca pela relevância contemporânea de textos antigos. Em outras palavras: o que o texto bíblico fala para nós, hoje?
Devemos ler a Bíblia de forma devocional. Mas também devemos ler a Bíblia para entender, aprender, e assim aplicar. O estudo da Bíblia certamente enriquecerá nossa leitura devocional. Assim, a hermenêutica apropriada começa com uma exegese sólida.
A razão pela qual devemos começar pela exegese é simples: o único controle apropriado da hermenêutica (interpretação) encontra-se no propósito original do texto bíblico. E somente chegamos a esse propósito original por meio da boa exegese. Senão, o leitor poderá dar qualquer significado a qualquer texto bíblico. Cada leitor terá sua própria “interpretação”. A subjetividade de cada “intérprete” seria a norma. Porém, a Bíblia é um livro objetivo, que possui uma interpretação objetiva e apropriada para cada texto, para cada uma das sessenta e seis obras que a compõem. Por isso é simplesmente essencial utilizar as ferramentas da exegese e da hermenêutica para chegar a um correto entendimento da mensagem bíblica.
Devemos chegar ao significado original do texto. Um texto não pode significar, hoje, o que jamais significou. O verdadeiro significado de um texto bíblico, para nós, hoje, é aquele que Deus se propôs originalmente que significaria quando o revelou. Esse é o nosso grande objetivo, a nossa tarefa como hermeneutas (intérpretes) da Bíblia.
3 – INSTRUMENTOS BÁSICOS
3.1. Traduções.
A Bíblia foi escrita originalmente em três idiomas: hebraico (na maior parte do Antigo Testamento), aramaico (idioma irmão do hebraico utilizado em partes de Daniel e Esdras e um versículo de Jeremias) e grego (em todo o Novo Testamento). Nem todos os leitores têm conhecimento desses idiomas. Isso significa que o primeiro instrumento básico do intérprete da Bíblia é uma boa tradução – ou melhor, várias boas traduções.
Ler uma tradução é ler uma interpretação. Ao utilizar somente uma tradução, o leitor fica comprometido com a interpretação daquela equipe específica de tradutores. E mesmo as melhores traduções da Bíblia podem conter imperfeições.
Qual tradução escolher? Simplesmente aquela que “eu gosto”? Precisamos conhecer alguns fatos sobre os manuscritos bíblicos, sobre a ciência da tradução e sobre as diversas traduções disponíveis em português, antes de escolher nossa “favorita”.
O Antigo Testamento possui, hoje, duas “famílias” principais de manuscritos: o Texto Massorético (TM) e os Manuscritos do Mar Morto (MMM).
Os massoretas eram os escribas judeus que padronizaram o texto hebraico do Antigo Testamento (c. 500-1000 d.C.). O TM que temos hoje baseia-se em manuscritos produzidos com cuidado reverente pelos escribas judeus ao longo de séculos. Recebe o apoio de traduções do Antigo Testamento (isto é, a Bíblia Hebraica) para outras línguas, especialmente a Septuaginta (LXX), versão grega datada dos séculos III e II a.C.
Outra família de manuscritos foi descoberta em
Existem mais de 5.000 manuscritos do Novo Testamento, que se dividem em duas “famílias” principais: o Texto Bizantino (também conhecido como Textus Receptus ou Texto Recebido) possui um número maior de manuscritos, porém mais recentes. Algumas das traduções da Bíblia em português que utilizam o Texto Bizantino são: Almeida Corrigida Fiel (ACF), da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil (SBTB); Almeida Revista e Corrigida (ARC), da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB); e a Edição Contemporânea de Almeida (ECA), da Editora Vida.
A segunda família de manuscritos do NT é conhecida como Texto Alexandrino (ou Texto Crítico ou ainda Texto Neutro). Possui poucos manuscritos, porém mais antigos. Sua maior característica é um texto mais enxuto e confiável. Fazem uso do Texto Alexandrino as seguintes traduções: Almeida Revista e Atualizada (ARA), da SBB; Nova Versão Internacional (NVI), da Sociedade Bíblica Internacional (SBI); Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), da SBB; e a recente Almeida Século 21 (A21), de Edições Vida Nova.
3.2. Dicionários.
Outra ferramenta indispensável para o intérprete da Bíblia são os dicionários. Não somente os dicionários bíblicos, mas é fundamental ter um excelente dicionário da Língua Portuguesa!
Quanto aos dicionários bíblicos, sugerimos os seguintes:
DAVIS, John. Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Editora Hagnos.
DOUGLAS, J. D. (ed.). O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Edições Vida Nova.
YOUNGBLOOD, Ronald F. Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Edições Vida Nova.
3.3. Manuais Bíblicos.
Há no mercado brasileiro excelentes Manuais Bíblicos. Um manual desse tipo é uma obra de referência para a vida toda.
DOCKERY, David D. Manual Bíblico Vida Nova. São Paulo: Edições Vida Nova.
HALLEY, Henry. Manual Bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida.
UNGER, Merril Frederick. Manual Bíblico Unger. São Paulo: Edições Vida Nova.
3.4. Comentários Bíblicos.
Esta é a ferramenta mais delicada e a última que deve ser consultada. Há muitas coleções de comentários bíblicos disponíveis em português (o que é bom), porém algumas delas não são confiáveis, porque foram escritas por autores comprometidos com teologias alheias à fé cristã histórica. No entanto, há Editoras sérias e responsáveis em nosso país, que publicam obras de qualidade. Recomendo os comentários bíblicos publicados pelas seguintes editoras: Vida Nova, Shedd Publicações, Hagnos, Cultura Cristã, Editora Fiel, ABU (Aliança Bíblica Universitária), Editora Evangélica Esperança.
Todo estudante sério da Bíblia deve ler comentários, e jamais prender-se a um único autor. Há alguns fatores que devem ser levados em consideração antes de ler um comentário:
1º. O comentário deve ser exegético – o autor deve conhecer os idiomas originais da Bíblia e fazer uso deles, ao longo de sua obra.
2º. O autor deve comentar a respeito de todos os significados possíveis de determinados textos (especialmente os reconhecidamente difíceis!).
3º. O autor deve conhecer e expor os contextos histórico, cultural, geográfico, etc, de cada texto.
4º. O autor deve mencionar (geralmente no fim do livro) uma bibliografia razoável para aprofundamento dos estudos.
4 – GÊNEROS LITERÁRIOS DA BÍBLIA E SEUS ASPECTOS HERMENÊUTICOS – UM BREVE PANORAMA ILUSTRATIVO
4.1. Epístolas.
A literatura epistolar da Antiguidade é profusa. Milhares de epístolas foram encontradas, além daquelas contidas no Novo Testamento. A epístola é um gênero literário dirigido a um público – não se trata meramente de uma “carta” escrita para ser lida apenas por uma pessoa ou um pequeno grupo. As epístolas seguem em geral o seguinte esquema:
1. Nome do escritor.
2. Nome do destinatário.
3. Saudação.
4. Oração ou ação de graças ou doxologia (elemento variável).
5. Texto.
6. Saudação final e despedida.
O intérprete bíblico precisa levar em consideração que todas as epístolas são documentos de ocasião, isto é, foram escritas devido a um evento ou ocasião específicos, com um motivo ou propósito singular. São casuais, e dependem de uma série de fatores históricos, culturais, políticos, etc.
Tomemos como exemplo 1Coríntios. Para compreender corretamente essa epístola, devemos, em primeiro lugar, tratar de compreender adequadamente a situação pela qual estava passando a igreja de Corinto, bem como a cultura daquela cidade, sua história, características, etc. Precisamos utilizar os recursos acima descritos – dicionários, manuais bíblicos, comentários – para que possamos conhecer a Corinto antiga e suas peculiaridades.
Em segundo lugar, para o estudo ser eficaz devemos formar o hábito de ler toda a epístola, e fazê-lo muitas vezes. As epístolas eram lidas dessa forma, e não de modo fragmentado. É fundamental ler a epístola várias vezes. Ao ler, devemos observar e anotar. Alguns exemplos de anotações:
1. Quem são os destinatários (judeus, gregos, escravos, livres, seus problemas, suas atitudes, etc).
2. A atitude do autor (no caso de 1Co, Paulo. Com que propósito ele está escrevendo? Qual seu objetivo?).
3. As coisas específicas mencionadas referentes à ocasião particular dessa epístola (que situação era aquela?).
4. As divisões lógicas e naturais da epístola.
Precisamos perceber qual a natureza precisa de cada um dos problemas dos destinatários (em nosso exemplo, de Corinto). Para isso deveremos estudar o contexto histórico de Corinto, bem como o contexto literário da epístola. Aqui, devemos aprender a “pensar em parágrafos”. É essencial identificar a ideia central de cada parágrafo da epístola. Naturalmente, o uso de uma tradução adequada é importantíssimo. A NVI, sabiamente, utiliza a divisão correta para cada gênero literário da Bíblia. Utilizando uma tradução assim, o leitor não terá dificuldade alguma para identificar cada parágrafo. Devemos reconhecer, igualmente, as metáforas, ilustrações, figuras de linguagem, etc, empregadas pelo autor da epístola.
Devemos lembrar sempre da “regra de ouro”: um texto não pode significar para nós, hoje, o que nunca significou para seu autor ou para seus leitores originais.
Algumas passagens certamente permanecerão obscuras para o leitor. Afinal, as epístolas não foram escritas originalmente para leitores do século XXI. Futuras pesquisas poderão elucidar trechos problemáticos.
Há um abismo cultural de dois mil anos entre os escritores e leitores originais do Novo Testamento e nós, hoje. Não devemos jamais esquecer esse fato.
4.2. Narrativas do Antigo Testamento.
Mais de 40% do AT é narrativa. A narrativa é um relato verídico, a história de Deus. É a história da intervenção de Deus na vida das pessoas e através das pessoas ao longo dos séculos. Geralmente, a narrativa não traz um ensinamento direto, porém exemplifica o que é ensinado diretamente em outro lugar. Por exemplo: na história de Davi e Bate-Seba, não há um ensino sistemático sobre adultério e assassinato, mas o que aconteceu com Davi posteriormente, ao enfrentar as gravíssimas consequências de seus atos, ilustra e exemplifica o caráter hediondo do adultério e do homicídio.
Há alguns princípios para a interpretação das narrativas do AT:
1. Uma narrativa geralmente não ensina diretamente uma doutrina, somente ilustra o que é ensinado como doutrina em outra parte da Bíblia.
2. A narrativa nos informa o que realmente aconteceu, historicamente, não o que deveria ter acontecido. Registra igualmente os acertos e os erros dos homens. Há exemplos que devem ser seguidos, mas há outros que devemos evitar a todo custo.
3. Nem sempre somos informados pela narrativa se as ações de um determinado indivíduo foram boas ou más. Devemos julgar os fatos narrados a partir do ensino global das Escrituras.
4. Todas as narrativas são seletivas e incompletas. Muita coisa do que ocorreu foi omitida.
5. As narrativas não foram escritas para resolver questões teológicas.
6. Deus sempre é o herói de todas as narrativas bíblicas.
Conhecer o contexto histórico é simplesmente indispensável para interpretar corretamente as narrativas do AT. É preciso tomar muito cuidado para não “alegorizar” as narrativas, fazendo-as significar hoje o que jamais significaram. E lembre-se: não tente imitar nenhuma personagem bíblica. A história de José aconteceu com José. Jamais se repetirá com qualquer outra pessoa.
O mau uso das narrativas do AT é uma das características de boa parte das igrejas “evangélicas” atuais, especialmente as neopentecostais, em sua ânsia por extorquir o povo simples que as frequenta. Ao interpretar as narrativas do AT, precisamos levar em conta, sempre, o contexto global das Escrituras, especialmente a revelação maior e mais profunda encontrada no Novo Testamento.
4.3. Os Evangelhos: Uma história em quatro dimensões.
Havia diferentes comunidades que precisavam de uma história de Jesus. Marcos provavelmente foi o primeiro evangelho a ser escrito. Depois foi “ampliado” por Mateus e Lucas. Tempos depois, João também escreveu seu evangelho. Cada um deles é um testemunho de Jesus, de acordo com seu ponto de vista, voltado para as necessidades de seu próprio público. Para estudá-los, é preciso buscar conhecer o contexto histórico de Jesus, o contexto histórico de cada evangelista e de seu público original. E dentro de um evangelho há narrativa histórica, ensino doutrinário, parábolas, profecias, etc. Cada um desses gêneros literários deve ser interpretado de acordo com sua natureza.
Os evangelhos contêm notas biográficas sobre Jesus, porém não são biografias. Ele não relatam com detalhes a vida de Jesus Cristo, mas trazem os fatos dos quais necessitamos saber para a nossa salvação.
A primeira tarefa da exegese é estar consciente do contexto histórico. Para bem compreender os evangelhos, em primeiro lugar precisamos pesquisar a vida e os tempos de Jesus, bem como seu contexto religioso, cultural, social, político e econômico. Devemos igualmente pesquisar a respeito de cada evangelista: Mateus, Marcos, Lucas e João. Qual o objetivo de cada um deles ao escrever sobre Jesus? Quem eram seus leitores originais? Em que época e lugar cada evangelho foi escrito? Além disso, devemos conhecer os diversos gêneros literários que formam um evangelho, especialmente a parábola, gênero muito utilizado por Jesus em seus ensinos. Outros gêneros presentes nos evangelhos são o ensino, a ordenança, a narrativa e passagens escatológicas.