segunda-feira, 18 de junho de 2012

O SEU ÚLTIMO ENCONTRO

Por JOEL R. BEEKE.

Prezado leitor:

Provavelmente não nos conhecemos e possivelmente jamais nos veremos. No entanto, quero escrever-lhe uma carta pessoal. E isso porque nós dois temos mais em comum do que você imagina. Ainda que nunca venhamos a nos conhecer pessoalmente neste mundo, um dia estaremos próximos um do outro, porque ambos possuímos uma alma imortal. E nessa alma deveremos nos apresentar um dia diante de Deus, nosso Criador, no grande dia do juízo final. "Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo" (Hb 9.27).

Você pode fazer de tudo para afastar de si o pensamento sobre a morte. Mas não pode escapar ao fato de que um dia você irá morrer. Você morrerá e se encontrará com Deus. Talvez você evite pensar na morte porque sabe que depois da morte vem o juízo, tão certo como depois do dia vem a noite. Portanto, quero fazer-lhe uma pergunta séria e solene: O que lhe acontecerá quando você morrer?

A Bíblia, a consciência, o senso comum, tudo declara que existe uma eternidade a ser encarada após a morte. Por isso, para o seu próprio bem, não fuja desta pergunta: Você está preparado para morrer e ser julgado por Deus?

Lamento ter de dizer que hoje há milhões de pessoas que pensam estar preparadas para a morte e para encarar o Juiz, mas infelizmente passarão a eternidade no inferno. É exatamente isso o que o Senhor nos diz em Sua santa Palavra: "Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?'. Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!" (Mt 7.22,23).

Alguma vez você refletiu sobre o terrível despertar que espera aqueles que passam por esta vida pensando que está tudo bem com eles, mas que ouvirão essas palavras terríveis: "Afastem-se de mim vocês que praticam o mal"?

Será que você e eu estaremos entre os muitos decepcionados que ouvirão essas palavras terríveis?

Alguns passarão a eternidade no Paraíso, outros no inferno.

Em primeiro lugar, devo dizer-lhe, honestamente, que a Bíblia declara (especialmente em Mateus 7) que a maioria dos seres humanos passará a eternidade no inferno. "Larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela" (Mt 7.13). Talvez isso lhe pareça cruel, mas isso ocorre não porque Deus seja cruel, mas porque nós, seres humanos, somos extremamente cruéis. Deliberadamente desafiamos o nosso Criador, desprezamos Seu amor e quebramos Seus mandamentos (que nos foram dados para o nosso bem-estar eterno). Em virtude de nossa rebelião e perversidade, merecemos a morte e o inferno. Essas são as únicas coisas que merecemos, "pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Rm 3.23), e "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23).

Que tipo de gente está incluído nessa vasta multidão destinada ao inferno?

1 - Todos os ímpios terminarão no inferno. Isso inclui aqueles que vivem abertamente em perversidade, como os que passam o tempo em bares, gastando seu dinheiro com bebidas e drogas; os que praticam imoralidade sexual; os que não respeitam o Domingo como o Dia do Senhor; os que diariamente assistem com prazer a inúmeras demonstrações de pecado na TV; os que usam o nome de Deus em vão; os que vivem em constante rebelião contra os pais e todo tipo de autoridade constituída por Deus.

Tais pessoas ímpias terminarão no inferno a menos que o Senhor os leve a um verdadeiro arrependimento e conversão mediante a Sua graça. Você pertence a esse grupo? Se sim, eu o exorto a buscar a graça que produz arrependimento, confissão e conversão, antes que seja tarde demais para você buscar o Senhor!

2 - Toda pessoa mundana terminará no inferno. Refiro-me àqueles que não planejam pecar, mas cujas vidas estão intrinsecamente ligadas ao mundo, de tal forma que vivem sem nenhum pesar ou arrependimento enquanto continuamente fazem coisas como colocar-se acima de Deus; desejar as riquezas do mundo mais do que as riquezas do Reino de Deus; promover os desejos carnais em oposição à vontade de Deus revelada na Palavra; valorizar as necessidades mundanas acima da necessidade de um Salvador; temer mais as consequências do pecado do que o Deus santo que odeia o pecado; crer que o que as pessoas pensam a seu respeito é mais importante do que o que Deus pensa a seu respeito. Estes passarão a eternidade no inferno a menos que o Senhor os leve a um verdadeiro arrependimento e conversão mediante o poder de Sua graça. Você pertence a esse grupo?

Se pertence, devo dizer-lhe que o Céu não é o seu lugar. Lá você não seria feliz, porque o Senhor do Céu não é seu amigo; você ama o que Ele odeia, e odeia o que Ele ama. A Palavra de Deus não é sua conselheira, a Sua luz não lhe agrada, e a Lei do Senhor não é o seu guia. Você não tem interesse em ouvir sobre Ele, muito menos de falar sobre Ele. Estar para sempre na presença de Deus seria algo que você não poderia suportar, e a convivência com os santos e com os anjos lhe seria um fardo. Em sua vida cotidiana, a Bíblia nada significa para você, e Jesus Cristo ainda menos. A salvação não é uma questão fundamental para você. "Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti!" (Ef 5.14). "Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro" (Mt 6.24).

3 - Muitas pessoas religiosas terminarão no inferno. Sim, é possível ser condenado ao inferno apesar de ter frequentado igrejas fiéis, ter sido estudante assíduo ou mesmo professor de escola dominical, ter sido obreiro ou pastor. A religião pode ser nosso assunto preferido, nossas conversas podem ter Jesus Cristo como tema principal, e nosso viver pode parecer impecável - tudo isso sem que nossa alma tenha sido salva da perdição eterna!

Podemos ser tão religiosos quanto as cinco virgens insensatas de Mateus 25, tendo a mesma confissão, a mesma expectativa, as mesmas lâmpadas e a mesma aparência de piedade das cinco virgens - e mesmo assim podemos nos perder para sempre. Podemos ser tão religiosos quanto Ahab, que "rasgou as suas vestes, vestiu-se de pano de saco e jejuou. Passou a dormir sobre panos de saco e agia com mansidão" (1Rs 21.27), e mesmo assim não se havia convertido.

Sim, é possível experimentar convicções superficiais de pecado e ter a impressão de contemplar a Deus e Seus atributos - inclusive reconhecer o pecado e de certa forma humilhar-se, gemer e orar, temer cometer pecado de novo - e mesmo assim ser impedido de entrar no Reino de Deus. Pensemos em Caim, Saul, Judas.

Precisamos mais do que uma religião de sentimentos, mais do que frequentar uma igreja. Precisamos da obra irresistível e regeneradora do Espírito Santo para nascer de novo e assim experimentarmos a conversão. Somente então poderemos amar a Deus com todo o nosso ser (que é o ingrediente que falta em nossos exemplos anteriores) e desejar a Deus como o viajante sedento deseja água fria. Somente então a graça de Deus nos permitirá preparar-nos para o nosso encontro com o Senhor. "Portanto, cuidado para que a luz que está em seu interior não sejam trevas" (Lc 11.35).

Como posso saber se estou incluído naqueles que irão para o Céu?

O caminho para a vida eterna é estreito e apertado.

Todos aqueles que irão ao Céu confessarão que sua salvação foi um grande milagre da graça de Deus. Serão pessoas que verdadeiramente nasceram de novo pelo poder do Espírito Santo (veja João 3). Serão pessoas convertidas por Deus, o que significa três coisas: 1) uma profunda tristeza por causa de sua própria iniquidade; 2) uma imensa alegria pela salvação em Cristo; 3) uma sincera gratidão a Deus (cf. Rm 7.24,25; Sl 50.15).

1 - Quando o Espírito Santo começa uma obra de salvação na vida do pecador, Ele não começa revelando a Cristo. Devido à nossa natureza pecaminosa, não há lugar para Cristo em nossos corações. O que Ele faz é confrontar o pecador com sua trágica situação diante de Deus. O pecador é levado a experimentar tristeza e angústia no coração por seus inúmeros pecados atuais em pensamentos, palavras e ações; tristeza e angústia no coração por viver sem Cristo, sem Deus e sem esperança no mundo; tristeza e angústia no coração ao compreender que o pecado original devastou seu ser, tornando-o uma fonte contaminada e poluída; tristeza e angústia no coração ao perceber que não pode salvar-se a si mesmo, que o faz implorar: "Senhor, tu és justo e tens todo o direito de separar-me de ti para sempre, mas haverá algum caminho em ti mesmo para escapar do teu castigo e ser restaurado à tua misericórdia?".

Você se considera também um pecador miserável, culpado, perdido - sem esperança alguma de salvação em si mesmo?

2 - Quando o pecador percebe que não há futuro para ele além da condenação eterna, e o Espírito Santo o capacita a entregar-se a Deus como seu único refúgio, esse mesmo Espírito Santo lhe mostrará o indescritivelmente rico e magnífico caminho de salvação e libertação provido por Deus, pelo sangue e pelo sacrifício perfeito de Jesus Cristo. O pecador é levado, então, a experimentar sua necessidade de Cristo; é levado a ter uma visão bela, completa e relevante da obra de Cristo a seu favor; recebe uma revelação de Cristo por meio da Palavra e do Espírito, por meio da qual compreende o modo como Cristo cumpriu plenamente a Lei e levou sobre Si o castigo completo do pecado no lugar de pecadores caídos e desprezíveis; recebe a aplicação da obra de Cristo, recebendo Cristo como seu Salvador e Senhor.

Você experimentou Cristo como o caminho de Deus para a sua salvação? Experimenta o desejo de conhecer mais a Cristo?

3 - Finalmente, aqueles que verdadeiramente experimentam o caminho da salvação em Jesus Cristo expressarão também uma profunda gratidão por tão grande livramento: "Como posso retribuir ao SENHOR toda a sua bondade para comigo?" (Sl 116.12). Sim, eles desejam entregar tudo - corpo e alma - nas mãos do Senhor por toda a eternidade, prostrar-se aos Seus pés em submissão verdadeira, e confessar: "Seja feita a tua vontade nos céus e na terra". Apesar de nossas transgressões, desejamos acima de tudo viver para a glória de Deus, e servir ao nosso próximo com amor.

Prezado leitor, examine-se a si mesmo.

Por qual caminho está indo?

Você anda pelo caminho amplo e espaçoso da perdição eterna ou pela trilha apertada da vida eterna? Neste mundo existem muitos caminhos diferentes, mas no mundo espiritual existem apenas dois, os quais nunca se interceptam. São tão opostos um ao outro como a escuridão é da luz, como Satanás é diferente de Deus, como o inferno é diferente do Céu. Somente Deus, em Sua graça, pode nos tirar do caminho espaçoso que leva à perdição e nos colocar no caminho estreito da vida eterna.

Pecador, eu rogo a você que se afaste do caminho da destruição, do pecado e da maldade. Implore a Deus por uma verdadeira conversão, implore Àquele que disse "você precisa nascer de novo", e "o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido". Sua alma está perdida e sua condição é terrível diante de Deus, por isso, clame ao Senhor para que Ele encontre lugar em seu coração para a mensagem do Evangelho, a mensagem de Jesus Cristo crucificado.

Deixo-lhe uma última advertência. Nos vinte e sete livros do Novo Testamento o inferno é mencionado 234 vezes. Se o caminho dos homens tivesse 27quilômetros, haveria 234 placas de sinalização com o seguinte aviso: "Este caminho leva ao inferno". Mesmo assim você permaneceria nesse caminho? Enquanto você permanecer como um pecador descrente, sem arrependimento, sem Cristo, satisfeito consigo mesmo, você continuará nesse caminho rumo ao inferno. O inferno é o fim de uma vida religiosa ou mundana que permanece sem Cristo.

Esta breve mensagem é também um outro aviso enviado a você pelo Senhor, para adverti-lo que todos os caminhos do homem terminam na morte. "Busquem o SENHOR enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto" (Is 55.6).

Quantos outros avisos o Senhor enviará a você, até que seu tempo termine, e chegue o dia em que você estará diante de seu Criador, para enfrentar o juízo?

Por amor à sua própria vida, tenha pressa. O fio de sua existência ainda não foi cortado, mas a cada dia que passa vai ficando mais fino e frágil. O Senhor ainda o chama: "Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos!" (Ez 33.11).

A porta da graça ainda está aberta. Você ouvirá a voz de Cristo antes que seja tarde? "Beijem o Filho, para que ele não se ire e vocês não sejam destruídos de repente, pois num instante acende-se a sua ira. Como são felizes todos os que nele se refugiam!" (Sl 2.12).

Todos aqueles que vivem sem Deus na terra viverão sob a ira de Deus no inferno. Como será terrível experimentar junto com o homem rico de Lucas 16, o inferno onde "estou sofrendo muito neste fogo" (Lc 16.24).

Prezado amigo, minha intenção é adverti-lo com amor. Nem você nem eu poderemos escapar da morte. Será um encontro ao qual não poderemos faltar, nosso último encontro, aconteça o que acontecer.

Você está preparado para o seu último encontro? Está preparado para morrer?

Joel R. Beeke é presidente e professor de Teologia Sistemática no Puritan Reformed Theological Seminary. É pastor da Heritage Netherlands Reformed Congregation, editor de Banner of Sovereign Grace Truth, diretor editorial de Reformation Heritage Books, presidente da Inheritance Publishers e vice-presidente da Dutch Reformed Translation Society, em Grand Rapids, Michigan, Estados Unidos. É autor, co-autor e editor de mais de 50 livros, dentre os quais Paixão pela Pureza: conheça os puritanos (Editora PES), Vencendo o Mundo e o magnífico Vivendo para a glória de Deus: uma introdução à fé reformada (ambos publicados no Brasil pela Editora Fiel).

Fonte: Biblioteca de la Iglesia Reformada.
http://www.iglesiareformada.com/Beeke_Cita_Faltaras.html

Traduzido do espanhol por Fábio Vaz.

terça-feira, 12 de junho de 2012

UMA FÉ QUE LEVA À ADORAÇÃO - PARTE 2

Por A. DEMETRIO CÁNOVAS MORENO.


O CONTEÚDO DA ADORAÇÃO

"E proclamavam uns aos outros: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória" (Is 6.3). [23]

Podemos estar certos de que o conteúdo da adoração dos serafins era a regra e não a exceção no Céu. Podemos, portanto, adotar tal conteúdo como modelo e paradigma do conteúdo de nossa própria adoração, pois os anjos adoram a Deus de modo perfeito.

Toda verdadeira adoração pública deve conter, no mínimo, certos elementos para ser considerada como tal. Encontramos tais elementos na visão de Isaías. São os seguintes:

Leitura da Palavra (v. 3)

É evidente que os serafins não leram a Bíblia nem consultaram nenhum manual de adoração. Mas também é evidente que eles não tinham necessidade disso: a Palavra de Cristo habita perfeita e abundantemente em seus corações (cf. Cl 3.16). A verdade que proclamaram no tocante à santidade de Deus encontra-se amplamente ratificada pelas Escrituras. Nós, no entanto, devido à nossa fraqueza humana, precisamos recorrer à leitura da Bíblia como auxílio indispensável a fim de expressar adequadamente nossa adoração.

As Escrituras devem guiar nossa adoração, caso contrário a mesma terá meramente "aparência de sabedoria" e "pretensa religiosidade" (cf. Cl 2.23). Quando os Apóstolos retornaram à igreja após serem interrogados, adoraram juntos a Deus citando as palavras das Escrituras (cf. At 4.25,26). O próprio Jesus sempre recorreu às Escrituras (Lc 4.17). E no livro de Apocalipse lemos o seguinte: "Feliz aquele que lê as palavras desta profecia e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito, porque o tempo está próximo" (Ap 1.3). A Bíblia é fundamental para que adoremos "em verdade" (Jo 4.24), e não segundo nossa própria imaginação. Se não permitirmos que a Bíblia seja o nosso guia, nossos sentidos podem ser desviados de nossa sincera e pura devoção a Cristo (cf. 2Co 11.3), e nossa "adoração" será simplesmente sentimental.

A leitura da Bíblia constitui um ato de adoração quando cremos que a mesma não somente contém, mas é a Palavra de Deus. A Bíblia deve ser lida - seja em público, seja a sós - com a plena convicção de que por meio dela Deus está falando conosco, e não de que estamos "discernindo" o que é Palavra de Deus para nós e o que não é.

Deus fala conosco para que possamos falar com Ele. A adoração não é simplesmente um monólogo de uma congregação que diz a Deus o que pensa sobre Ele. A adoração é o diálogo no qual Deus fala por meio de Sua Palavra, e Seu povo responde por meio dos diversos elementos do culto.

A leitura bíblica é um ato solene que deve ser feito com toda a dignidade e por pessoas idôneas. Afinal, é o único elemento inerrante do culto!

"A leitura da Palavra de Deus na congregação, ao ser parte integrante do culto (por meio da qual reconhecemos nossa dependência d'Ele e nossa submissão a Ele), e um meio santificado por Ele para a edificação do Seu povo, deve ser realizada pelos pastores e mestres". [24]

Oração

Em sua intervenção, os serafins não pareciam dirigir-se diretamente a Deus. No entanto, o que diziam sobre Deus é basicamente o que Jesus ensinou a seus discípulos ao dirigir-se ao Pai: "Santificado seja o teu nome" (Mt 6.9). Igualmente, quando Isaías reage à visão (v. 5), suas palavras mais parecem um solilóquio do que uma interpelação. Não obstante, refletem a oração de Gideão: "Ah, SENHOR Soberano! Vi o Anjo do SENHOR face a face!" (Jz 6.22). Mais adiante, no entanto, Isaías participa desse diálogo que é a oração, dizendo: "Eis-me aqui. Envia-me!" (v. 8), concordando maravilhosamente com a primeira oração do recém-convertido Saulo: "Que devo fazer, Senhor?" (At 22.10).


As manifestações dos serafins e de Isaías manifestam um profundo reconhecimento da grandeza e da glória de Deus, que deve fazer parte de toda oração genuína. Um profundo sentimento de indignidade e pecaminosidade diante de Deus e um oferecimento a Ele de tudo o que somos e temos para glorificá-Lo. Na oração nos oferecemos a Deus como um "sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês" (Rm 12.1). Na oração oferecemos a Deus "um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome" (Hb 13.15). Não há nem um traço de egocentrismo na verdadeira oração. A ação de graças e o louvor deveriam predominar sobre nossas petições, de acordo com o modelo do Pai Nosso.


Certamente há lugar para a petição e a intercessão na oração, mas sempre subordinadas ao louvor e à ação de graças, e de modo coerente com eles. A oração jamais deve ser considerada como um meio para "obter coisas" de Deus, mas sim como um ato de adoração pelo qual Deus glorifica a Si mesmo ao responder graciosamente às nossas necessidades. A ordem bíblica neste sentido é: "Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas" (Mt 6.33).


Interessante a definição de Calvino a respeito da oração:


"É uma espécie de comunicação entre Deus e os homens, por meio da qual adentramos no santuário celestial, somos lembrados de Suas promessas e exortados a demonstrar, quando a necessidade assim o requer, que aquilo em que temos crido simplesmente em virtude de Sua Palavra é verdade, e não mentira e falsidade". [25]


Este conceito é muito diferente do sentido utilitário de muitas "orações" atuais.


A oração é uma resposta à revelação de Deus. O que Isaías disse cada vez que abriu sua boca foi em resposta ao que viu e ouviu. Ao longo da História os santos homens de Deus têm orado "sobre as Escrituras", isto é, lendo passagens bíblicos palavra por palavra ou frase por frase, e orando em harmonia com elas. O pensamento que controlava suas orações era chegar a Deus por meio da Palavra de Deus.


Em alguns círculos está sendo ensinado o conceito de "visualização" das orações, isto é, que não devemos nos limitar a pedir certas coisas, mas devemos visualizar mentalmente suas características concretas: cor, forma, modelo, etc. A semelhante disparate respondemos que a única coisa que Isaías "visualizou" foi a glória e a santidade de Deus, e isso através de uma teofania. Calvino, já no século XVI, advertia a respeito desse perigo, ao comentar sobre o Pai Nosso:


"Finalmente, devemos guardar-nos com toda a cautela em nossas orações para não sujeitar nem ligar Deus a determinadas circunstâncias, nem limitá-Lo a tempo, lugar ou modo de realizar o que pedimos; assim, nesta oração somos ensinados a não legislar para Deus, nem impor a Ele condição nenhuma, mas sim deixar totalmente a Seu beneplácito que Ele faça o que bem entender, do modo, no tempo e no lugar em que tiver por bem". [26]


Com exceção dos serafins, o elemento coletivo da adoração encontra-se ausente na experiência de Isaías, que se expressa sempre na primeira pessoa: "Ai de mim", "Eis-me aqui", etc. Porém, a adoração comunitária é sempre ressaltada nas Escrituras. A própria oração-modelo, o Pai Nosso, pressupõe em seu início uma comunidade que se dirige de forma unânime a Deus. Até há bênçãos especiais associadas a esse tipo de oração (cf. Mt 18.19,20). Portanto, muitos crentes revelam incoerência quando, num contexto de uma reunião de oração, clamam "meu Pai". Não é essa, de modo nenhum, a ênfase da Bíblia.


A oração coletiva ou comunitária apresenta-se a nós como uma prática habitual da Igreja primitiva (cf. At 1.13,14; 4.24ss; 12.12) que demonstra sua importância como parte do culto a Deus. [27]


A oração pública se distingue da particular - entre outras coisas - pela sensibilidade que devemos ter para com os que ouvem e assentem. É lamentável que muitas vezes se ore por pessoas ou motivos desconhecidos para os demais participantes, ou que se ore com um tom de voz que torne a oração ininteligível para os demais. Para tais casos bem que poderíamos aplicar as palavras de Paulo em 1Co 14.15-17.


Existe o perigo da ostentação na oração pública. O fariseu da parábola (Lc 18) é um bom exemplo de tal atitude, que não se limita simplesmente a elogiar suas próprias virtudes, mas também seu conhecimento bíblico.


É importante notar a relevância que as Escrituras dão aos homens no contexto do culto: "Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem discussões" (1Tm 2.8). Se bem que as mulheres podem e devem orar na igreja (cf. 1Co 11.13), não é bíblico que elas dominem a reunião de oração enquanto os homens permanecem calados.


Cânticos


"E proclamavam uns aos outros" (Is 6.3).


É interessante notar que a Bíblia nunca menciona que os anjos cantem. Mesmo que algumas versões da Bíblia possam dar a impressão de que o fazem, nos textos originais não é assim. Em numerosas ocasiões eles são apresentados falando a Deus no Céu e aos homens na Terra, mas nunca cantando.


Na visão de Isaías, os seres celestiais praticavam uma espécie de antífona. O termo hebraico para "proclamar" aqui é hillel, que significa, entre outras coisas, gritar de alegria. Poderia ser considerado, pois, como o equivalente angélico ao canto humano.


O cântico, como parte da adoração, tem sido a prática do povo de Deus desde os tempos mais remotos. A primeira manifestação dessa prática musical aparece no famoso cântico de Miriam, a irmã de Moisés, após a derrota do exército egípcio (Ex 15). Posteriormente os cânticos no Tabernáculo e no Templo (registrados no livro dos Salmos) desenvolveram essa atividade cúltica (Sl 105.1,2; Jr 20.13).


E no Novo Testamento encontramos Jesus e seus discípulos cantando um hino no final da última ceia (Mt 26.30). Outras referências ao canto comunitário podem ser encontradas tanto em Atos quanto nas epístolas (At 16.25; 1Co 14.15; Cl 3.16).


Parece, no entanto, que o cântico não foi uma atividade generalizada na Igreja pós-apostólica, pois Agostinho informa que a igreja de Milão começou a utilizar o canto em tempos de Ambrósio, e no segundo livro de suas Retratações ele afirma que tal costume teve início em sua época na África. [28]


Nossa norma, no entanto, deve ser a Bíblia, e o modelo que esta nos mostra constantemente é o cântico comunitário. Portanto, nenhum coro, grupo ou solista deve suplantar a participação de toda a congregação no louvor lírico. A Reforma, precisamente, resgatou o canto coletivo do ostracismo ao qual havia sido relegado pela igreja medieval. Hoje, no entanto, corremos o risco de retornar às práticas medievais mediante as "apresentações" de grupos, bandas e artistas evangélicos.


Nosso texto ressalta o poder do louvor celestial, indicando que, ao mesmo tempo em que devemos evitar o volume estridente e exagerado de alguns "louvores" modernos, também devemos nos precaver contra expressões apagadas e desmotivadoras em nossa adoração. O versículo 4 nos informa que "ao som das suas vozes os batentes das portas tremeram". Uma das características dos crentes galeses é formar coros de 1000 vozes (talvez em resposta ao desejo expressado no hino de Wesley, "Oh, quem me dera mil línguas para cantar louvores ao meu grande Redentor"). Ouvir tais demonstrações musicais pode nos ajudar a ter uma ideia da potência do louvor que há no Céu.


Um conceito errado que foi introduzido em nossos cultos é o de "tempo de louvor", o espaço dedicado para cantar ao Senhor, como se esse fosse o único modo de adorá-Lo, sem perceber que as Escrituras ensinam que "um sacrifício de louvor" é "fruto de lábios que confessam o seu nome" (cf. Hb 13.15), já seja cantando, orando ou pregando.


Os cânticos não devem predominar no culto cristão. É interessante perceber que em Atos dos Apóstolos vemos somente uma única vez os cristãos cantando, e esta é (surpreendentemente) quando "Paulo e Silas estavam orando e cantando hinos a Deus", na masmorra em Filipos! (cf. At 16.25). O cântico cristão deve ser considerado (por melhor que seja) como um auxiliar em nossa adoração, pois, como diz Calvino, seu propósito é ajudar "o espírito a pensar em Deus (...) pois sendo frágil e quebradiço, facilmente pode distrair-se com diversos pensamentos, se não recebesse todo tipo de ajuda". [29]


A isso podemos acrescentar que o cântico nos ajuda a expressar sentimentos que somente palavras não poderiam. Ele também nos ajuda a memorizar passagens bíblicas.


Os diversos cânticos que eram entoados no Antigo Testamento costumavam ser acompanhados de música instrumental, ainda que os instrumentos não afogavam o canto, como acontece hoje em alguns lugares. A música jamais deve ser um fim em si mesma, mas sim um meio que facilite o louvor a Deus. E ainda que o Novo Testamento não mencione nenhum instrumento musical, não devemos utilizar o argumento do silêncio para condenar seu uso.


De qualquer modo, nem todo tipo de música é igualmente válido para a adoração. A música cristã é importante porque pode produzir em seus ouvintes e em seus intérpretes um determinado efeito. Mas que tipo de efeito é o desejável? Aquele que faz mover os corações - ou aquele que faz mover os quadris? Determinados ritmos podem ser associados a lugares e ocasiões bem mundanos, e não aos átrios do Senhor. Determinados ritmos apelam para a carne, jamais nos elevam a Deus. [30]


Quanto ao conteúdo, se bem que é recomendável utilizar os Salmos, não há razão para não utilizar outras porções das Escrituras ou mesmo composições baseadas na Bíblia. A exortação para cantar "salmos, hinos e cânticos espirituais" (Ef 5.19) não pode significar "salmos, salmos e salmos". O que importa é que as letras sejam bíblicas (cf. Cl 3.16) e que reflitam de forma equilibrada todas as doutrinas. Não é admissível cantar ao Senhor somente como Rei e esquecer outros atributos divinos, bem como a cruz, a graça, o perdão, a salvação e tantos outros conceitos chave. Nossos cânticos deveriam ter conteúdo teológico. Não basta um ritmo contagiante!


O subjetivismo generalizado que, como uma epidemia, contagiou inúmeras igrejas, é igualmente inaceitável. Os evangélicos têm cantado para si mesmos, cantado sobre o que sentem, sobre o que necessitam, sobre suas experiências (?), etc, como se a excelência da verdade bíblica fosse insignificante, e o importante fosse o "sentir-se bem". É irônico que, muitas vezes, o louvor (supostamente dirigido a Deus) tenha como personagem principal aquele que está cantando. Isso não quer dizer que devemos evitar o elemento subjetivo em nossas músicas e em nossas orações. Mas quando o elemento subjetivo predomina sobre o objetivo, abre-se a porta para todo tipo de incoerências e absurdos.


No tocante à adoração musical, deve haver tanto preparação quanto espontaneidade. O cântico é uma expressão externa, e portanto não deve ser vítima da improvisação. Mas ao mesmo tempo deve haver liberdade suficiente para que, espontaneamente, a congregação possa repetir os cânticos, ou parte deles, se assim é orientada a fazê-lo, como aconteceu em alguns avivamentos.


Pregação


"E proclamavam uns aos outros: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória" (Is 6.3).


Isaías não teve uma visão que deveria ser investigada ou decifrada. Ele viu e ouviu. Essa combinação, naturalmente, não era novidade no Antigo Testamento. Abraão (Gn 15), Jacó (Gn 28), Moisés (Ex 3; 33), Josué (Js 5.13-15) e outros tiveram experiências semelhantes. E a Palavra foi fundamental em suas experiências.


Igualmente, na adoração cristã - que busca, entre outras coisas, obter uma visão de Deus pela fé - a pregação da Palavra deve ocupar o lugar central. Não é exagerado, portanto, dizer que "há um sentido no qual a pregação não é simplesmente um elemento, mas a própria base da adoração". [31]


A importância e a centralidade da pregação encontram-se severamente abaladas na atualidade. O Dr. Lloyd-Jones queixava-se, já em sua época, da atividade de certos "dirigentes de louvor" que procuravam produzir uma "atmosfera" para a adoração, mas que empregavam tanto tempo para isso, que no final não havia tempo para pregar naquela atmosfera! [32] Em geral, hoje lutamos contra a tendência de abreviar cada vez mais o tempo dedicado à pregação com o objetivo de aumentar ainda mais o erroneamente chamado "período de louvor" e outros elementos secundários. Como diz W. H. Cadman,


"A adoração cristã é ao mesmo tempo a Palavra de Deus e a resposta humana em obediência à Palavra".


Obliterar a pregação é privar o povo de Deus de um meio de graça essencial, primordial para a sua obediência e serviço. Como afirma Calvino,


"A Igreja não pode ser edificada a não ser pela pregação externa, e os santos não poderão manter-se unidos uns aos outros por qualquer outro vínculo que não seja o de guardar a ordem que Deus estabeleceu para a Sua Igreja" [33] (Ef 4.12).


Não é possível ignorar a importância que a Bíblia atribui à pregação, tanto dentro como fora do contexto da adoração. O Novo Testamento utiliza mais de trinta verbos para expressar a atividade da pregação. Os termos "Palavra de Deus", "Palavra do Senhor" ou simplesmente "Palavra", nas epístolas paulinas, são utilizados muitas vezes para indicar a palavra pregada (cf. Cl 4.3; 1Ts 1.6,8; 3.1; 2Tm 2.9; 4.1; etc). [34] Com isto concorda Bullinger: "A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus". [35]


Somos informados que os Apóstolos estavam "todos os dias, no templo e de casa em casa", e que "não deixavam de ensinar e proclamar que Jesus é o Cristo" (At 5.42). E a pregação de Paulo em Trôade excede em muito os parâmetros modernos da homilética (cf. At 20.9).


Obviamente, nem tudo que é chamado de pregação é digno desse nome. Por isso, um antigo documento cristão nos lembra as características que a verdadeira pregação deve ter:


"O ministério da Palavra deve ser levado a cabo com esforço, simplicidade, fidelidade, sabedoria, seriedade, amor e tal como ensinado por Deus". [36]


Nesse sentido, é essencial que a pregação seja expositiva. Isso significa não somente (como alguns pensam) explicar uma série de versículos consecutivos, mas também a fiel exposição e aplicação do que as Escrituras dizem, seja um versículo ou uma passagem isolada, seja uma série de sermões sobre um determinado livro da Bíblia. Não podem ser considerados como pregação os sermões que consistem meramente em comentários sobre assuntos atuais, ou notícias de jornais, ou novelas, ou discussões éticas ou filosóficas. Essas formas de "pregar" carecem da autoridade distintiva que provém unicamente da Palavra de Deus. [37]


É importante, pois, que os cristãos - seguindo o exemplo dos bereanos - exerçam seu direito ao livre exame das Escrituras, porque se aqueles o exerceram mesmo diante de um Apóstolo, quanto mais devemos aplicá-lo a aqueles que encontram-se, hoje, tão distantes da inspiração apostólica!


As Ofertas


"Eis-me aqui. Envia-me!" (v. 8)


Isaías não trouxe nenhum tipo de oferta ao Senhor. Mas o que fez - e essa é nossa melhor oferta a Deus - foi oferecer a si mesmo. Sim, como disseram os serafins, "a terra inteira está cheia da sua glória" (v. 3), então tudo o que nela há pertence a Deus (cf. Sl 24.1), e duplamente os remidos!


Adoremos, pois, a Deus com tudo o que somos e o que temos. Como diz um antigo cântico:


Todos juntos louvemos
Ao Senhor, a quem devemos
O que somos e o que temos,
Tudo d'Ele vem!


Se cremos que cumprimos com este aspecto da adoração simplesmente dando nosso dinheiro, ou o dízimo, estamos muito enganados. Se bem que o dízimo é o mínimo que devemos dar, também o que fica para nós pertence ao Senhor, inclusive todo o nosso ser. E devemos usar e administrar tudo para a glória de Deus. Na adoração oferecemos a Deus nossos corpos em "sacrifício vivo" (cf. Rm 12.1, ARA). A adoração é um exercício integral. Mesmo na nova criação teremos um corpo - um corpo glorificado - com o qual também adoraremos a Deus por toda a eternidade.


Dito isso, é importante reconhecer que nossas ofertas monetárias, procedentes de um coração agradecido, são mais do que mera contribuição. Como diz Herbert Carson,


"Nossas ofertas são a prova de nosso reconhecimento da providência de Deus". [38]


Davi, falando dos preparativos para a construção do Templo, reconheceu que nossas ofertas são uma devolução a Deus daquilo que Ele nos deu de antemão (1Cr 29.14).


Devido à nossa natureza pecaminosa, o ato de ofertar nunca foi fácil, e menos ainda nestes tempos de consumismo. Esse fator leva muitas vezes a dar ao Senhor daquilo que sobra, depois de termos satisfeito todas as necessidades artificiais que o marketing moderno nos faz sentir. Isso repercute negativamente na obra de Deus, que muitas vezes sofre um estancamento devido à falta de recursos.


Por outro lado, no entanto, a solução não está num enfoque excessivo sobre finanças que em algumas ocasiões apela ao sentimentalismo (ou a outros métodos indignos) para recolher fundos. Pelo contrário, se os crentes veem suas ofertas como uma forma de honrar o Senhor (cf. Pv 3.9), seguirão o exemplo dos filipenses em seu cuidado material para com Paulo (Fp 4.18).


Muito se tem debatido sobre a conveniência ou não de recolher ofertas no transcurso do culto - especialmente em consideração aos não-crentes que possam estar presentes. Não entraremos nesse debate aqui, mas certamente não deve faltar no culto a menção - especialmente em oração - de que estamos trazendo nossas ofertas ao Senhor.


Os Sacramentos


"Logo um dos serafins voou até mim trazendo uma brasa viva, que havia tirado do altar com uma tenaz. Com ela tocou em minha boca e disse: Veja, isto tocou os seus lábios; por isso, a sua culpa será removida, e o seu pecado será perdoado" (vv. 6-7).


Habitualmente consideramos como sacramentos do Antigo Testamento a circuncisão e a Páscoa. Evidentemente, Isaías não estava participando de nenhum deles nessa ocasião. No entanto, a ação de um dos serafins de tocar seus lábios com uma brasa viva pode muito bem ser descrita como sacramental.


Se consideramos um sacramento como uma ordenança "na qual mediante os símbolos visíveis é representada, selada e aplicada nos crentes a graça de Deus em Cristo e os benefícios do pacto da graça" [39], ou como "um sinal visível e exterior de uma graça espiritual e interior" [40], a qualificação faz muito sentido. Não há dúvidas de que Isaías recebeu um sinal visível pelo qual foi-lhe aplicada a graça propiciatória de Deus em Cristo.


Os sacramentos [ordenanças, para os batistas] são parte integrante do culto cristão, e não devem ser celebradas como se fossem um mero apêndice do mesmo. Eles marcam o caminho da adoração ao mostrar de forma pictórica a obra de redenção proclamada pela Palavra.


Os sacramentos demonstram que a adoração acontece por meio da cruz, que não há outro caminho para a presença de Deus além do "novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, do seu corpo" (Hb 10.20). Por isso canta o salmista: "Então irei ao altar de Deus, a Deus, a fonte da minha plena alegria. Com a harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus!" (Sl 43.4).


Os sacramentos, assim como o culto cristão em sua totalidade, são para os remidos: "Com teu sangue compraste para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação. Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus..." (Ap 5.9,10). "Cristo amou a igreja e entregou-se por ela" (Ef 5.25). Esses sinais externos proclamam a realidade espiritual e interna de que Cristo morreu pelos eleitos e somente eles são dignos de participar dos símbolos da redenção.


É importante, portanto, que os sacramentos estejam unidos à Palavra e que sejam definidos por ela. [41] Não somente uma brasa viva foi aplicada aos lábios de Isaías, mas também foi-lhe dada uma explicação a respeito daquela ação simbólica. É interessante notar que Agostinho de Hipona descreveu os sacramentos como "palavras visíveis".


Portanto, rejeitemos os "sacramentos" que a Igreja de Roma têm acrescentado, pois, como dizem os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, os verdadeiros sacramentos foram "ordenados por Cristo, nosso Senhor, no Evangelho". Calvino diz:


"Aprendamos, pois, que a parte principal dos sacramentos consiste na Palavra, e que sem ela  são corrupções absolutas, como as que vemos hoje no papismo, no qual os sacramentos se transformam em peças teatrais". [42]


Os sacramentos são uma proclamação do que Deus tem feito para a nossa salvação, não uma tentativa humana de aproximar-se de Deus e ser aceito por Ele. Demonstram que a fé cristã é teocêntrica, e não antropocêntrica: "vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha" (1Co 11.26).


Os sacramentos são uma prática habitual da Igreja primitiva (cf. At 2.41,42; 9.18; 10.48; 16.33; 20.7; etc) e, especialmente, a Ceia do Senhor era muito mais frequente. Celebrá-la poucas vezes por ano não faz justiça ao modelo apostólico.


Muita discussão tem sido gerada em torno da questão se os sacramentos são meros símbolos [posição batista tradicional] ou meios de graça [posição reformada tradicional]. Particularmente concordo com Calvino, que os sacramentos são meios de graça. Se não fossem, seria difícil entender a Ceia como participação no corpo e no sangue de Cristo (cf. 1Co 10.16).


Assim como as demais partes do culto, os sacramentos devem ser celebrados com decência e ordem. A prática da igreja de Corinto era certamente reprovável (1Co 11.20-22), como também qualquer atitude que careça da devida solenidade e reverência. Se Cristo nos concedeu tais símbolos externos, o elemento exterior, longe de ser circunstancial, é parte essencial dos mesmos. Celebrar, por exemplo, a Ceia com Coca-Cola não deixa de ser uma incongruência tão grande quanto utilizar frutas em vez de pão.


A comunhão fraternal


"E proclamavam uns aos outros" (v. 3).


A adoração dos anjos tinha uma dimensão vertical (para Deus) e uma dimensão horizontal (uns aos outros). É evidente que eles procuravam louvar a Deus, mas o faziam numa dimensão coletiva. É o que poderíamos chamar de comunhão fraternal na adoração.


Esta é, sem dúvida, uma das razões para a existência do culto público. Quando adoramos a Deus como igreja, não buscamos simplesmente dar "mais glória" a Deus, mas sim ter comunhão uns com os outros.


Os cristãos primitivos conheciam, indubitavelmente, esse aspecto da adoração. Não somente perseveravam na doutrina dos Apóstolos, nos sacramentos e nas orações, mas também na comunhão dos santos (At 2.42).


O autor da epístola aos Hebreus pede a seus leitores, num contexto de culto, que se exortem mutuamente (Hb 10.25). Paulo, em 1Co 11 - 14, tem como premissa que os membros participam de comunhão fraternal na adoração. A forma que essa comunhão adota depende da interpretação e aplicação feitas pelas igrejas, mas de qualquer modo, jamais uma igreja pode ser um mero centro de pregação ou - pior ainda - um centro de espetáculos no qual os membros não passam de meros espectadores.


Historicamente os reformadores adotaram, geralmente, os conteúdos cúlticos indicados nesta seção. Assim, o culto das manhãs de domingo em Genebra constava dos seguintes pontos:


1. Frase bíblica: Salmo 124.8.
2. Oração de abertura (escrita na liturgia) buscando a misericórdia de Deus.
3. Salmo cantado.
4. Oração livre (escrita pelo próprio pastor).
5. Leitura bíblica.
6. Sermão.
7. Oração principal (escrita na liturgia).
8. O Pai Nosso.
9. Salmo cantado.
10. Bênção final (a bênção de Arão, Nm 6.24-26). [43]


Além disso, no culto de comunhão era lido o Credo Apostólico. Em tempos posteriores, os puritanos independentes, provavelmente sob a influência de John Owen, eliminaram do culto todas as orações litúrgicas, ainda que a lógica dessa mudança (já que os hinos são orações litúrgicas com música) não pareça muito correta. [44]


OS EFEITOS DA ADORAÇÃO


"Então gritei: Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!" (v. 5)


Em certo sentido, a visão de Isaías não foi uma experiência agradável. Na verdade, ele sentiu-se muito mal: "Ai de mim!". Sentiu-se "perdido", literalmente "silenciado", incapaz de dizer ou fazer coisa alguma na presença de Deus. Sentiu-se, acima de tudo, indigno de louvar a Deus com seus "lábios impuros".


Obviamente ele teve uma impressão maravilhosa da glória e da santidade de Deus, mas o texto ressalta seu sentimento de indignidade.


A adoração genuína deve ter algum efeito, em maior ou menor grau, sobre nós. Caso contrário, é bem provável que não tenhamos adorado em nenhum sentido. A presença de Deus - a "fumaça", v. 4, é uma manifestação da presença divina, como podemos ver em outros casos no Antigo Testamento - e o som de Sua voz não deixam ninguém impassível.


A adoração a Deus põe em evidência nosso estado pecaminoso diante d'Ele. Isso é algo que podemos esquecer facilmente em nosso dia a dia, mas que voltamos a sentir vividamente na presença de Deus.


Essa experiência não significa uma pecaminosidade especial por parte dos adoradores; santos homens de Deus, nos tempos bíblicos, sentiram-se extremamente pecadores na presença de Deus: Moisés diante da sarça ardente, Elias no monte Horeb, Jó diante do torvelinho, Ezequiel junto ao rio Quebar, o Apóstolo João em Patmos, etc...


Não estou comparando tais visões com a experiência cotidiana da adoração cristã, mas,  essencialmente, o elemento comum é a manifestação da presença de Deus e isso estabelece um inegável paralelismo.


A depravação total dos seres humanos torna-se ainda mais evidente ao contemplar a Deus e ao nos comparar com Ele em vez de com nossos semelhantes. Então percebemos a imensa iniquidade que contamina todas as nossas faculdades. Interessante notar que a característica comum a todos os avivamentos do passado é a profunda convicção de pecado que apoderava-se de todos os que participavam de tais eventos.


Certamente a adoração deveria significar uma experiência agradável na presença de Deus (cf. Sl 16.11). Mas a ênfase atual na alegria e no júbilo na adoração - em vez de convicção de pecado, temor e reverência - é completamente oposta ao modelo bíblico. De fato, pode-se perceber facilmente uma evidente contradição entre a "extravagância" da adoração moderna e as manifestações visíveis da presença de Deus na Bíblia (cf. Ml 3.2). Existe um enorme contraste entre a irreverente familiaridade para com Deus na adoração atual e os "lábios impuros" de Isaías e seu povo.


A adoração pode ter efeitos físicos em alguns casos. "Os batentes das portas tremeram" (v. 4). E quando os Apóstolos oraram em certa ocasião com outros crentes, "tremeu o lugar em que estavam reunidos" (At 4.31). Semelhantemente, nossas emoções podem - e devem! - ser afetadas pela adoração, mas sua manifestação dependerá de nosso temperamento e de outros fatores. Não somente nossas faculdades morais e intelectuais estarão envolvidas; deve haver um elemento emocional também. No entanto, as emoções devem ser a consequência de um entendimento intelectual e de uma aceitação moral. Existe sempre o perigo do emocionalismo barato e da manipulação das emoções em determinados círculos, mas isso não deve impedir que exista um lugar correto para as emoções em nossos cultos. Uma adoração sem sentimentos não é coerente com um encontro real e pessoal com Deus.


AS CONSEQUÊNCIAS DA ADORAÇÃO


"Então ouvi a voz do Senhor, conclamando: 'Quem enviarei? Quem irá por nós?'. E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!" (v. 8).


A visão de Isaías não teve somente efeitos imediatos, mas consequências duradouras. Em outras palavras, não somente afetou as emoções do profeta, mas também a vontade do profeta.


A experiência de Isaías não consistiu meramente num incidente isolado em sua vida ou no argumento para contar uma história ou escrever um livro. Pelo contrário: marcou um momento transcendental que condiciou definitivamente a sua vida e todo o seu ministério posterior. Para Isaías, seu encontro com Deus teve consequências que podem ser resumidas numa palavra: serviço. Ou, especificamente, serviço evangelístico.


A manifestação de Deus para Isaías não teve meramente o propósito de que o profeta contemplara a glória divina. Deus buscava não somente um adorador, mas também um servo; alguém que levasse a cabo uma importante missão em nome de Deus. A pergunta (e o desafio) de Deus foi geral: "Quem enviarei?". A resposta de Isaías foi particular: "Eis-me aqui. Envia-me!". A adoração bíblica nunca pode ser uma experiência mística e introspectiva, mas sim tremendamente prática. É triste observar nos participantes de certos tipos de "adoração" que, depois do culto, não demonstram o menor interesse nem mesmo pelos seus irmãos ao lado.


De acordo com a Bíblia, a adoração precede o serviço, não o contrário. Como acertadamente indica John Blanchard:


"A adoração vem antes do serviço, e o Rei antes dos assuntos do Rei".


Ou, nas palavras de A. W. Tozer:


"Deus quer adoradores mais do que obreiros; certamente, os únicos obreiros aceitáveis são os que aprenderam a arte da adoração".


Ou, como Calvino expressou séculos atrás:


"O primeiro fundamento da justiça é sem dúvida a adoração a Deus".


E como indica John Murray:


"Aquele ou aquilo a quem adoramos determinará nossa conduta".


A fé reformada não deve, portanto, ser confundida com o hipercalvinismo que, com seu conceito fatalista da predestinação, inevitavelmente evoca apatia e desânimo. C. H. Spurgeon, por exemplo, cria piamente na predestinação; no entanto, ninguém pode duvidar de seu zelo evangelístico, sua paixão pelas almas e de suas insistentes exortações para que os pecadores se voltassem para Deus. Sua posição neste sentido encontra-se perfeitamente retratada no livro O Spurgeon que foi esquecido, de Iain Murray (Editora PES).


A adoração nos capacita para servir melhor a Deus. A comissão de Isaías poderia ser chamada de "missão impossível": pregar uma mensagem que todos desprezariam e cujo ápice seria uma destruição total (vv. 9-13). Diante disso ele bem poderia perguntar: "Mas, quem está capacitado para tanto?" (cf. 2Co 2.16). E a resposta bem poderia ser: somente aquele que foi capacitado por Deus por meio da adoração. Somente assim pode-se prestar um serviço teocêntrico, não condicionado pela resposta das pessoas e sem recorrer a métodos de marketing, sem a ansiedade de contar novos convertidos, porém olhando somente a glória de Deus. Somente assim pode-se perseverar ("Até quando, Senhor?", v. 11) sem resultados imediatos ou aparentes. Isaías não chegaria sequer a ver o exílio. Referindo-se aos versículos 9 e 10, Alec Motyer reconhece: "Não há modo de escapar ao claro significado dessa passagem". [45]


Somente na presença de Deus compreendemos que Ele não nos envia para ter sucesso, mas para sermos fiéis. Não para colecionar números e estatísticas, mas para ser "o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo" (2Co 2.15).


Somente podemos servir a Deus adequadamente depois de ter uma visão de Deus, convicção de pecado e certeza do perdão. Como disse Davi, "Então ensinarei os teus caminhos aos transgressores, para que os pecadores se voltem para ti" (Sl 51.13).


Somente assim Isaías pôde oferecer a si próprio, dizendo: "Eis-me aqui!". Isaías ofereceu a si mesmo a Deus antes mesmo de conhecer qual seria a sua missão. É que, quando contemplamos a face de Deus em adoração, não são os dons ou as atividades concretas que contam, mas sim o ardente desejo de servir a Deus.


CONCLUSÃO


Creio ter demonstrado a tese principal deste artigo: que a fé reformada [calvinista], com seu alto conceito de Deus, da soberania e da glória divinas, é a que melhor nos capacita para adorar a Deus e fazê-lo de modo agradável a Ele, honrando-O, ao mesmo tempo em que nos capacita, igualmente, para servi-Lo adequadamente.


No entanto - e isto é fundamental - somente numa vivência espiritual, real, piedosa e efetiva, esta fé poderá dar os desejados frutos que glorifiquem a Deus.


No Terceiro Milênio de Cristianismo, no qual nos coube viver, poderemos continuar adorando a Deus se permanecermos na fé herdada de nossos pais e que - se Cristo não voltar antes - poderemos deixar como um precioso legado para os nossos filhos.


SOLI DEO GLORIA!




NOTAS


[23] Interessante a tradução oferecida por Leupold: "O que enche a terra constitui a Sua glória". Exposition of Isaiah, página 128. Evangelical Press, 1977.
[24] The Subordinate Standards of the Free Church of Scotland, Directory for the Public Worship of God, páginas 138-139.
[25]  Instituição, III, xx, 2.
[26] Ibid., III, xx, 50, § 3. Sobre o Pai Nosso em geral, veja os comentários de Calvino na Instituição, III, xx, 34-52.
[27] Ibid., III, xx, 29-30.
[28] Ibid., III, xx, 32.
[29] Ibid., III, xx, 31.
[30] Selecciones Literarias nº 29, artigo "Música, maestro!".
[31] Herbert Carson: "Halleluja!", página 27.
[32] Dr. Lloyd-Jones: Preaching and Preachers, página 17. Publicado no Brasil sob o título Pregação & Pregadores, Editora Fiel.
[33] Instituição, IV, i, 5.
[34] Nuevo Diccionario de Teología, artigo "Predicación".
[35] Segunda Confissão Helvética, capítulo 1.
[36] Directory for the Public Worship of God da Igreja Livre da Escócia.
[37] Para um tratamento amplo sobre a pregação expositiva, veja Denis Lane: Predica la Palabra (Editorial Peregrino, 1989). Em português, veja Hernandes Dias Lopes: A Importância da Pregação Expositiva para o Crescimento da Igreja (Editora Candeia); David Otis Fuller: Spurgeon Ainda Fala (Edições Vida Nova); John Stott: O Perfil do Pregador (Edições Vida Nova); Charles W. Koller: Pregação Expositiva Sem Anotações (Editora Mundo Cristão); Haddon Robinson e Craig B. Larson: A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica (Shedd Publicações); Jilton Moraes: Homilética: da pesquisa ao púlpito e Homilética: do púlpito ao ouvinte (Editora Vida).
[38] Herbert Carson: "Halleluja!", página 82.
[39] Louis Berkhof: Teología Sistemática, página 737 (da edição espanhola).
[40] Livro de Oração Comum da Igreja da Inglaterra.
[41] Instituição, IV, XVII, 39.
[42] Citado por E. J. Young: The Book of Isaiah, volume 1, página 252.
[43] Nick Needham: "Reformed Worship: Lessons from History?", revista Grace, dezembro de 1996.
[44] Ibid.
[45] The Prophecy of Isaiah, página 78.


FONTE: Segunda parte do artigo Una fe que lleva a la adoración, capítulo 4 do livro:
PUIGVERT, Pedro (org.). Una Fe para el III Milenio: El Cristianismo histórico: lo que es y lo que implica. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2002, pp. 173-197. Leia a Parte 1 aqui. Traduzido do espanhol por F. V. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

IGREJAS DE ARAQUE NUM PAÍS DE TOLOS

Nunca foi fácil ser cristão. A igreja "primitiva", assim chamada, foi perseguida primeiro pelos judeus e depois pelos romanos. Homens, mulheres, crianças, jovens e velhos que confessavam Jesus Cristo como Senhor eram - literalmente - jogados aos leões nas arenas romanas, ou despedaçados por gladiadores treinados, ou queimados vivos para iluminar os jardins imperiais à noite, ou crucificados. Quando Constantino, a partir de 313 d.C., "legalizou" o Cristianismo no Império Romano, os cristãos poderiam pensar que as coisas ficariam mais fáceis. Mas não ficaram. Infelizmente o Império Romano não foi "cristianizado", mas ocorreu exatamente o contrário: o Cristianismo passou a sofrer um processo de romanização. Multidões de pagãos entravam na Igreja diariamente, trazendo consigo suas antigas práticas, crenças e doutrinas religiosas, num sincretismo incontrolável. Quando o Império Romano do ocidente cai, a partir de 476, após várias invasões bárbaras, o caos político e social acelera o processo de erosão da sã doutrina bíblica nas fileiras da Igreja. A Europa mergulha então na longa noite medieval, quando a Bíblia foi praticamente ocultada do povo "cristão". [1] Nascia então a Igreja Católica Apostólica Romana.

Após séculos de ignorância e medo, o domínio do terror católico-romano foi finalmente quebrado - embora parcialmente - pela luz da Reforma Protestante. Deus levantou homens como Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio, João Calvino e John Knox, entre outros, para devolver a Bíblia ao povo e libertar os verdadeiros cristãos do jugo romanista e das garras da ignorância, da idolatria e da heresia. Mais uma vez a sã doutrina bíblica foi pregada e ensinada. Homens e mulheres morreram por ela, mártires da Reforma, queimados em praça pública pelos romanistas (ou afogados, ou enforcados, ou empalados, etc - os inquisidores eram muito criativos). Muitos pagaram com o próprio sangue pela sua profissão de fé em Jesus Cristo. Mas "o sangue dos mártires é a semente da Igreja", como disse Tertuliano no século II, e nos séculos subsequentes não foi diferente. Apesar da feroz oposição, a obra dos reformadores triunfou e perdurou. Tempos depois, da Inglaterra protestante levas de refugiados - puritanos, quakers, congregacionais e outros - cruzariam o Atlântico rumo ao Novo Mundo. E mais tarde, da América do Norte, missionários protestantes rumariam para as Américas Central e do Sul. E assim o Evangelho chegou ao Brasil católico, principalmente a partir do século XIX e início do século XX.

Aqui, em solo tupiniquim, os primeiros protestantes enfrentaram, obviamente, inúmeras dificuldades. Não somente a cultura, o idioma e o clima eram diferentes, mas a ameaça real dos romanistas fez-se sentir, em sua luta implacável para impedir a circulação da Bíblia em território nacional.[2] No entanto, o tempo passou, o protestantismo, a muito custo, pôde ser instalado no Brasil e na América Latina, criou raízes, cresceu e desenvolveu-se. A princípio amparado e dirigido por líderes estrangeiros, pouco a pouco obteve também a sua "independência", pelo menos parcialmente, à medida que líderes nativos começavam a surgir nas diferentes denominações. Sempre em meio a muita luta. Sempre enfrentando dificuldades severas, principalmente de ordem econômica e social. E sempre sob ataque constante do catolicismo romano e sua idolatria, seu desdém pela Bíblia e seu desejo insaciável de poder.

Sim, o tempo passou. A fé evangélica floresceu. Cresceu. Desenvolveu-se. As igrejas espalharam-se pelo país, crescendo num ritmo cada vez mais acelerado, especialmente a partir de meados do século XX. Mais ou menos a partir dessa época a "maré pentecostal" tomou fôlego e passou a dominar o cenário evangélico brasileiro. Como uma última "onda" dessa "maré", surgiram as igrejas neopentecostais. E na década de 1970 tais "igrejas" começaram a estabelecer sua teologia - a "teologia da prosperidade" - receita de sucesso para os espertalhões religiosos.

A teologia da prosperidade é uma invenção norte-americana. Surgida nos primórdios do século XX nos Estados Unidos, foi mais tarde utilizada no Brasil para alavancar o crescimento de verdadeiros impérios financeiros, construídos sobre a ignorância e a credulidade de multidões de "fiéis" que, hipnotizados por tais ideias, sonham com um deus que lhes dê riquezas, bem-estar e saúde - enfim, um paraíso na Terra. Para obter tais promessas, não hesitam em seguir cegamente seus líderes, dando a eles o fruto de seu trabalho (quantias não insignificantes de dinheiro), sem perceber que estão sendo extorquidos. Nas igrejas neopentecostais, o culto é um show. Usa-se a Bíblia a fim de utilizar versículos esparsos, sempre fora de seus respectivos contextos, a fim de iludir os frequentadores dos templos e os telespectadores (a maioria dessas "igrejas" desfruta de grande espaço na TV) com promessas falsas de uma prosperidade que nunca chega na vida real (exceto, é claro, nos "testemunhos" de "crentes fiéis" que são veiculados nos programas televisivos de tais igrejas, mostrando os entrevistados quase sempre a bordo de modernos carros importados, em garagens de mansões luxuosas. Acredite quem quiser...). E assim uns poucos enriquecem a olhos vistos ao custo do suor e da credulidade de muitos.

O deus dos neopentecostais é realmente um grande negociante. Ele negocia bênçãos; dependendo do tamanho de sua oferta, será o seu retorno financeiro. Esse deus também se assemelha a uma máquina caça-níqueis: coloque a moeda (faça a sua oferta), puxe a alavanca (participe do serviço religioso, que pode incluir até mesmo uma "sessão de descarrego" ou algo parecido), e espere pelo melhor. Mas o melhor muitas vezes não chega... mas isso é pela sua falta de fé!

No Brasil, as igrejas neopentecostais tiveram seu início a partir do surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), criada por Edir Macedo, proprietário da Rede Record de televisão, bem como de um vasto império financeiro que se estende por outros países e continentes. Em 1977 Macedo declarou-se "bispo" e, incorporando elementos de outras religiões não-cristãs, deu início à IURD. Logo viriam a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, do casal Estevam e Sônia Hernandes, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, de R. R. Soares (este, saído diretamente da IURD). Mais recentemente (1998), eclodiu a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), gêmea e arqui-rival da IURD, capitaneada por Valdemiro Santiago, que assim como Hernandes antes dele, autoproclamou-se "apóstolo". Santiago foi bispo da IURD e "temperou" a doutrina da prosperidade pregada por Macedo com uma ênfase muito forte em curas e milagres, atraindo grande número de ex-fiéis da Universal para suas fileiras. Ele próprio, no entanto, também precisou lidar com dissidentes: em 2010, um ex-bispo da IMPD funda a Igreja Mundial Renovada, sob o lema "A glória da segunda casa será maior do que a da primeira". No mesmo ano outro dissidente da IMPD funda a sua própria denominação, a Igreja Missionária do Amor. Em 2011 mais um ex-bispo de Valdemiro Santiago deixa a IMPD para estabelecer uma igreja própria, a Igreja Evangélica Celeiro de Deus.

Hoje inimigos ferrenhos, Macedo e Santiago digladiam-se sem trégua em seus programas de TV ou nos demais veículos de informação de seus respectivos impérios. O dono da Universal apelou até para o diabo, entrevistando um "demônio" que anunciou que Valdemiro Santiago era seu títere. Também utilizou sua rede Record para veicular denúncias contra Santiago, referentes à aquisição de uma propriedade rural. O falso apóstolo respondeu jocosamente, lembrando que se tinha comprado uma fazenda, o próprio Macedo havia adquirido uma rede de TV inteira. Boatos e intrigas também surgiram em meio à guerra entre os dois rivais. A briga vai longe, certamente, pois ambos disputam a mesma fatia de mercado: pessoas crédulas e ignorantes. Muitas delas lotam tais "igrejas" por pura ignorância, certas de que estão no lugar certo e de que seus líderes são honestos. Mas outras - desconfio que a maioria, a julgar pelo país em que vivemos - estão lá porque realmente querem é prosperar e enriquecer, querem um deus que as sirva, e não um Deus a quem devem servir, seja na riqueza seja na pobreza. Querem um deus que atenda seus desejos, e estão dispostas a tudo para conseguir seus sonhos. Mas não querem um Deus soberano, que exalta a quem quer e humilha a quem quer. Essas pessoas estão realmente no lugar certo, embora jamais terão seus anseios realizados (ao contrário de seus líderes, que enriquecem à custa de sua credulidade).


Até mesmo outro líder - antes um pentecostal clássico, hoje mais um defensor da maldita teologia da prosperidade - se pronunciou bradando que Macedo e Santiago são "farinha do mesmo saco". Esse mesmo cidadão chamou de "idiotas" aqueles que se opõem à teologia da prosperidade.


Somente no Brasil homens assim podem prosperar livremente. Em qualquer país civilizado do mundo, já estariam há muito tempo atrás das grades.


Somente no Brasil, país onde a corrupção sempre prosperou no cenário político. Onde os maiores criminosos são os que infectam o nosso Congresso Federal.


Somente no Brasil, onde o povo canta "assim você me mata" e "eu quero tchu-tcha-tcha" e grita "gol!!!" enquanto é espoliado, roubado, usado e ridicularizado pelos seus governantes (que ele próprio, o povo, colocou no poder).


Somente aqui tais falsas igrejas poderiam prosperar de modo tão avassalador. Somente aqui encontram solo tão fértil (claro que sei que há igrejas neopentecostais em outros países, mas duvido que tenham no exterior o mesmo sucesso que têm no Brasil).


O povo brasileiro aceita tudo. Leva tudo "na esportiva". Acostumado a "dar um jeitinho" em cada situação, não se incomoda em ser espoliado pelos parasitas políticos - desde o vereador até o senador, desde o prefeito até o/a presidente. O que vale é a "lei de Gérson", isto é, levar vantagem em tudo - de preferência, pisando nos outros. Dizem que numa democracia, o povo tem o governo que merece. Pois o povo brasileiro realmente tem escolhido a dedo seus governantes!


Nossas estradas estão intransitáveis (com exceção, é claro, das rodovias que o governo entregou para empresas privadas, nas quais deve-se pagar pedágio para trafegar - então, pagamos impostos para quê?!). Nossos hospitais, sucateados, superlotados, falidos. Nossas escolas? Pra quê educação? Povo ignorante, povo manipulado! Professores, médicos, policiais e inúmeros outros profissionais essenciais para o crescimento saudável de um país - todos esquecidos por governantes hipócritas e corruptos. E por aí vai...


Arrastões, assaltos, assassinatos, sequestros, violência sem trégua, num país onde só falta dar uma medalha de honra aos bandidos. Num país onde basta pagar um advogado para livrar-se da cadeia, não importa o crime que se tenha praticado. Num país cujo código penal parece ter sido especialmente projetado para favorecer os criminosos e prejudicar os cidadãos honestos.


A ética e a moralidade são ridicularizadas, desprezadas e até perseguidas neste país. A imoralidade é exaltada, idolatrada, festejada. Especialmente pelos meios de comunicação. Eles "se ligam" em manipular você. Idiotizam ainda mais o povo brasileiro, já entorpecido por natureza. É o país do carnaval! É o país do futebol! É o país do futuro! É o país dos canalhas... 


Por isso não é de se estranhar esse "Circo Gospel" no qual se transformou a maior parte da igreja "evangélica" brasileira. Os neopentecostais fazendo de tudo para destruir o verdadeiro Evangelho de Cristo, enquanto boa parte dos "cristãos sérios" emudece, pois a "turma do deixa-disso" brada bem alto: "Não podemos julgar! Não podemos julgar! Não podemos julgar!", e assim dia a dia vai-se perdendo a dignidade e a credibilidade da Igreja. Não é só ignorância. É o "jeitinho brasileiro". "Deixa a vida me levar..." deixa a vaca ir pro brejo. Igrejas de araque num país de tolos. Como nos primórdios do Cristianismo, multidões de pagãos ingressam diariamente na "Igreja", trazendo suas práticas (sua falta de ética e sua conduta imoral), suas crenças (e sua falta de caráter) e - é claro! - o seu famoso "jeitinho brasileiro" (ler a Bíblia dá muito trabalho! Tenho preguiça! Prefiro ouvir o pastô falar e ficar só "recebendo as bênça"!). Multidões que são facilmente manipuladas, extorquidas e usadas pelos profetas da prosperidade. O povo brasileiro é, em sua maioria, crédulo, e qualquer coisa que é dita pelos chefões neopentecostais é recebida sem titubeios pelos seus fiéis seguidores.


Quem disse que não podemos julgar? Ora, a Bíblia ordena que julguemos! O julgamento proibido é o julgamento insensato, sem dados, sem fatos, sem provas, sem respaldo ético e moral. Em sua ignorância bíblico-teológica e em sua ânsia por defender mercenários e espertalhões, muitos adeptos do Circo Gospel, por exemplo, empunham Mateus 7.1-5 para vociferar contra os (poucos) cristãos sérios que "ousam" levantar-se contra as aberrações neopentecostais. Os mesmos se esquecem (que conveniente, não?) de ler o versículo seguinte:


"Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se para vocês, os despedaçarão" (Mateus 7.6).


Ora, se absolutamente não podemos julgar, como então poderemos nos precaver contra os cães e contra os porcos?! Como, então, cumprir essa ordem de Jesus?


Também se esquecem de ler Mateus 7.15-23:


"Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro, ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!
"Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?' Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!"


Sim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! Ora, portanto, o julgamento de acordo com os fatos e de acordo com a observação dos resultados das ações dos homens é não somente válido, como obrigatório para os cristãos!


A turma do "deixa-disso" (cúmplices e marionetes dos profetas da prosperidade) deveria ler mais a Bíblia, especialmente 1Coríntios 6.1-3:


"Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida!" (Todo o capítulo 6 é deveras interessante).


Nunca foi fácil ser cristão! Mas nestes dias, neste país, onde o Cristianismo é ridicularizado pelos neopentecostais, e aqueles que ousam denunciá-los são atacados pelos defensores da ignorância (a turma do "deixa-disso"), está cada vez mais difícil saber quem é, de fato, cristão!


Onde estão os protestantes? Onde estão os herdeiros de Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio, João Calvino, John Knox e tantos outros? Onde estão os herdeiros de Jonathan Edwards, J. C. Ryle, Charles Spurgeon, Arthur Pink e tantos outros? Onde estão os herdeiros dos puritanos, de Martyn Lloyd-Jones, de John Stott? Onde estão os verdadeiros crentes? Cadê os protestantes, onde estão os protestantes?!


É hora da Igreja - a verdadeira - levantar-se, protestar contra e denunciar esse monstruoso Circo Gospel. É hora de denominações sérias, históricas, pronunciarem-se oficialmente a respeito dessas igrejas de araque, desse país de tolos (e de tolas, para ser politicamente correto).


Denuncie, irmão, denuncie! Confesse, Igreja, sua verdadeira vocação, seu verdadeiro Cristianismo, porque estamos sendo todos colocados no mesmo "saco" desse lixo neopentecostal, desse arremedo de igreja.


É tempo de erguer novamente a bandeira protestante, a bandeira da Reforma, e esclarecer ao povo deste país que o neopentecostalismo não é Cristianismo, que essas igrejas não são igrejas cristãs verdadeiras, e que esses profetas da prosperidade não são verdadeiros homens de Deus.


Que o Senhor tenha misericórdia de Sua Igreja e deste país.


NOTAS

[1] Certamente estou ciente de que a chamada "Idade Média" não foi uma era de obscurantismo total e de "trevas absolutas". Houve criação artística e científica, e progresso em inúmeras áreas do conhecimento humano. De fato, sem uma "Idade Média" não teríamos um Renascimento, mais tarde. Mas refiro-me, aqui, às trevas espirituais que cobriram a maior parte desse período histórico, dominado por uma Igreja tirânica e ignorante.

[2] Cf. CAIRNS, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja Cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 366.