domingo, 6 de maio de 2012

TEMORES APOSTÓLICOS

Por J. C. Ryle.

"O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo" (2Coríntios 11.3).

O texto acima contém parte da experiência de um famoso cristão. Talvez nenhum servo de Cristo tenha deixado semelhante marca para o bem do mundo como o Apóstolo Paulo. Quando nasceu, todo o império romano, com exceção de uma pequeníssima parte, estava submerso nas trevas do paganismo; quando morreu, o tremendo conglomerado pagão havia sido sacudido em seu núcleo e já estava a caminho da ruína. E nenhum dos instrumentos que Deus utilizou para produzir essa maravilhosa mudança fez mais do que Saulo de Tarso depois de sua conversão. No entanto, mesmo em meio a tanto sucesso e utilidade para Deus, podemos ouvi-lo clamar: "Receio!".


Tal clamor possui uma melancolia que exige a nossa atenção. Quem pensa que Paulo teve uma vida cômoda por ser um Apóstolo, por ter feito milagres, por ter fundado igrejas e por ter escrito epístolas inspiradas pelo Espírito Santo, tem muito o que aprender. Nada mais longe da verdade! O capítulo 11 de 2Coríntios conta uma história muito diferente. Esse capítulo merece um estudo cuidadoso. Em parte devido à oposição dos pagãos, filósofos e sacerdotes, cujo ofício estava em perigo, em parte devido à amarga inimizade de seus próprios compatriotas descrentes, em parte devido aos irmãos falsos ou fracos, em parte devido ao seu próprio aguilhão na carne, o grande Apóstolo dos gentios era como seu Senhor: "um homem de dores e experimentado no sofrimento" (cf. Is 53.3).


Mas de todos os fardos que Paulo teve de suportar, nenhum parece ter pesado tanto quanto a preocupação por todas as igrejas (2Co 11.28). O conhecimento precário de muitos cristãos primitivos, sua fé débil, sua inexperiência, sua esperança minguada, seu baixo nível de santidade, todas essas coisas os faziam particularmente suscetíveis de perder-se por causa dos falsos mestres, e assim afastar-se da fé. Como crianças pequenas, que com grande dificuldade começam a andar, necessitavam ser tratados com grande paciência. Como plantas exóticas numa estufa, deveriam ser tratados continuamente. Pode-se duvidar que eles mantinham o Apóstolo num estado de contínua ansiedade? Nos surpreende que ele diga aos colossenses: "Quero que vocês saibam quanto estou lutando por vocês, pelos que estão em Laodiceia e por todos os que ainda não me conhecem pessoalmente"; e aos gálatas: "Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho". "Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?" (Cl 2.1; Gl 1.6; 3.1). Nenhum leitor atento pode estudar as epístolas sem perceber que essa questão surge uma e outra vez. E o texto que encabeça este artigo é um exemplo do que quero dizer: "O que receio, e quero evitar, é que assim como a serpente enganou Eva com astúcia, a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sua sincera e pura devoção a Cristo" (2Co 11.3). O texto contém três importantes lições, às quais desejo que meus leitores dirijam sua atenção. Creio que são lições válidas para todas as épocas.


I. Em primeiro lugar, o texto nos revela uma doença espiritual a qual todos somos suscetíveis e a qual devemos temer. Essa doença é o desvario da mente: "Receio... que a mente de vocês seja corrompida".


II. Em segundo lugar, o texto nos revela um exemplo que devemos sempre lembrar: "A serpente enganou Eva com astúcia".


III. Em terceiro lugar, o texto nos revela um ponto sobre o qual devemos manter vigilância. Esse ponto é o desvio de nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


O texto é uma mina de ouro profunda, e não encontra-se isento de dificuldades. Mas desçamos corajosamente a fim de encontrar nosso tesouro.


I. Primeiramente, pois, há uma doença espiritual que devemos temer: o desvario ou corrupção da mente. 


Interpreto "corrupção da mente" como a lesão que nossa mente sofre ao admitir falsas doutrinas e ensinos antibíblicos em nossa religião. E creio que o Apóstolo queria dizer o seguinte: "Receio que seus sentidos absorvam ideias equivocadas e defeituosas a respeito do Cristianismo. Receio que vocês adotem como verdades alguns princípios que não são a Verdade. Receio que vocês se afastem da fé que foi entregue de uma vez por todas aos santos e que abracem ideias que praticamente destroem o Evangelho de Cristo".


O receio expressado pelo Apóstolo é dolorosamente instrutivo e à primeira vista pode até causar surpresa. Quem poderia imaginar que, mesmo sob o olhar dos próprios discípulos escolhidos por Cristo, quando o sangue vertido no Calvário mal havia secado, quando a era apostólica e a era dos milagres ainda não havia passado, já existiria o perigo de que os cristãos se afastassem de sua fé? No entanto, é certo que o "mistério da iniquidade" já havia começado a operar antes mesmo da morte dos Apóstolos (cf. 2Ts 2.7). "Já agora muitos anticristos têm surgido" (1Jo 2.18). E não há nenhum fato na história da Igreja que esteja mais demonstrado que este: que a falsa doutrina jamais deixou de ser uma praga na cristandade nos últimos dezoito séculos. Olhando para o futuro com olhos de profeta, Paulo disse: "Receio... não somente a corrupção de sua moralidade, mas também de seus sentidos".


A pura verdade é que a falsa doutrina tem sido o modo escolhido por Satanás para deter o avanço do progresso do Evangelho de Cristo em todas as épocas. Ao ver-se incapaz de evitar que a fonte da vida fosse aberta, ele tem trabalhado incansavelmente para poluir os mananciais que dela começam a fluir. Embora não tenha conseguido estancá-la, eventualmente tem sido bem-sucedido ao neutralizá-la por meio de adição, substração ou substituição. Em outras palavras, tem corrompido as mentes dos homens.


a) A falsa doutrina logo propagou-se pela igreja primitiva depois da morte dos Apóstolos, ainda que muitos gostem de falar de uma suposta pureza inicial da Igreja. Em parte devido ao estranho ensino a respeito da Trindade e da pessoa de Cristo, em parte devido a uma absurda multiplicação de ritos e cerimônias, em parte devido à introdução do monasticismo e de um ascetismo de origem humana, a luz da Igreja logo foi enfraquecendo e sua utilidade foi perdida. Mesmo nos tempos de Agostinho, como nos diz o prefácio do Livro de Oração inglês: "O número de cerimônias cresceu de tal modo que o estado dos cristãos era pior do que o dos judeus nesse aspecto". Aqui estava a corrupção dos sentidos humanos.


b) Durante a Idade Média, a falsa doutrina havia se propagado de tal forma pela Igreja, que a Verdade de Cristo Jesus esteve a ponto de ser enterrada ou sufocada. Durante os três séculos anteriores à Reforma, é provável que somente uma minúscula parte dos cristãos teria conseguido responder à pergunta: "O que devo fazer para ser salvo?". Os papas e cardeais, os abades e priores, os arcebispos e bispos, os sacerdotes e diáconos, os monges e as freiras, salvo raríssimas exceções, estavam profundamente imersos na ignorância e na superstição. Estavam submersos num sono profundo, do qual foram parcialmente despertos pelo terremoto da Reforma. Neles estava a "corrupção dos sentidos humanos".


c) Desde os dias da Reforma a falsa doutrina tem voltado a surgir continuamente, uma e outra vez, estorvando a obra começada pelos reformadores. O modernismo em algumas regiões da Europa, o unitarismo em outras, o formalismo e a indiferença em outras, têm feito do protestantismo algo simplesmente estéril.


d) A falsa doutrina, mesmo na atualidade e diante de nossos próprios olhos, está devorando o coração da Igreja da Inglaterra e colocando em perigo sua existência. Uma escola eclesiástica não hesita em expressar seu desagrado diante dos princípios da Reforma e está buscando romanizar o sistema. Outra escola, com o mesmo ímpeto, fala com desdém da inspiração bíblica, graceja da própria ideia de uma religião sobrenatural e tenta tenazmente lançar fora os milagres como se fossem trastes inúteis. Outra escola proclama a liberdade de opinião religiosa em todas as suas variações e nos diz que todos os mestres merecem a nossa confiança sem importar quão heterodoxas e contraditórias sejam suas opiniões, desde que sejam inteligentes, fervorosos e sinceros. Para todas essas escolas é válida a mesma observação: são exemplo vivo da "corrupção da mente humana".


Diante de fatos como esses, faríamos bem em tomar seriamente as palavras do Apóstolo no texto que encabeça o presente artigo. Como ele, temos motivos de sobra para recear. Creio que os cristãos ingleses jamais precisaram estar tão em guarda quanto hoje. Jamais foi tão necessário que os ministros fiéis clamem em alta voz e não se calem. "Se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha?" (1Co 14.8).


Peço a cada membro leal da Igreja da Inglaterra que abra seus olhos diante do perigo ao qual sua Igreja está exposta e tenha cuidado para que ela não seja danificada por causa da apatia e de um desejo insano de paz. A controvérsia é algo odioso; mas há tempos em que a mesma torna-se um dever imperioso. A Paz é algo excelente; mas, assim como o ouro, pode custar muito caro. A Unidade é uma grande bênção; mas não vale nada se é conquistada em troca da Verdade. Repito mais uma vez: abra seus olhos e mantenha-se em guarda.


A nação que se dá por satisfeita com sua prosperidade comercial e descuida suas defesas nacionais porque são complicadas ou caras, provavelmente se transformará em presa do primeiro Alarico, Átila ou Napoleão que decida atacá-la. A Igreja que seja "rica e próspera" pode pensar que "de nada tem necessidade" devido a sua antiguidade, sua ordem e suas qualidades. Pode clamar "paz, paz" e se convencer de que não verá mal nenhum. Mas, se não   conservar a sã doutrina entre seus ministros e membros, não deverá surpreender-se de que lhe retirem seu candelabro.


Desaprovo desde o fundo do meu coração a covardia ou o pessimismo diante desta crise. A única coisa que digo é: Exercitemos um temor piedoso. Não vejo a menor necessidade de abandonar um barco velho e dá-lo por perdido. Por ruins que pareçam as coisas dentro de nossa arca, certamente não são piores do que o dilúvio lá fora. Mas protesto, sim, contra esse espírito despreocupado de sonolência que parece selar os olhos de muitos clérigos e cegá-los diante do enorme perigo em que se encontram devido ao progresso das falsas doutrinas em nosso tempo. Protesto contra a ideia generalizada que tão frequentemente proclamam os homens de altos cargos de que a Unidade é mais importante do que a sã doutrina e que a Paz é mais valiosa do que a Verdade. E convoco todo leitor deste artigo que ame verdadeiramente a Igreja da Inglaterra e que reconheça os perigos desta época e leve a cabo seu dever de resistir energicamente a tais clérigos por meio da ação conjunta e da oração. Não é sem motivo que o Senhor diz: "Se [alguém] não tem espada, venda a sua capa e compre uma" (cf. Lc 22.36). Não esqueçamos as palavras de Paulo: "Estejam vigilantes, mantenham-se firmes na fé, sejam homens de coragem, sejam fortes" (1Co 16.13). Nossos nobres reformadores compraram a Verdade pagando com seu próprio sangue e a entregaram a nós. Não a venderemos por um prato de lentilhas em nome da Unidade e da Paz.


II. Em segundo lugar, o texto nos revela um exemplo que faremos bem em lembrar: "A serpente enganou Eva com astúcia".


Quase não é necessário lembrar aos leitores que Paulo, aqui, faz referência à história da Queda no capítulo 3 de Gênesis como um fato histórico. Não há aqui a menor indicação que propicie à crítica moderna a ideia de que o livro de Gênesis não passa de uma agradável coleção de mitos e fábulas. Não dá a entender que não existe um ser como o diabo, que não houve um fruto proibido e que não foi desse modo, literalmente, que o pecado entrou no mundo. Ao contrário, menciona a história de Gênesis 3 como um fato histórico que ocorreu realmente.


Devemos recordar, igualmente, que este não é um caso isolado. É fato que as várias histórias de milagres extraordinários do Pentateuco são mencionadas no Novo Testamento sempre como fatos históricos. Caim e Abel, a arca de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra, Esaú vendendo sua primogenitura, a morte dos primogênitos no Egito, a passagem pelo Mar Vermelho, a serpente de bronze, a água que fluiu da rocha, a jumenta de Balaão que falou - os autores do Novo Testamento mencionam todas essas coisas como algo real, não como fábulas. Não esqueçamos disso jamais. Aqueles que gostam de desprezar os milagres do Antigo Testamento e tirar a autoridade do Pentateuco fariam bem em considerar se têm mais conhecimento do que nosso Senhor Jesus Cristo e do que os Apóstolos. Quanto a mim, falar de Gênesis como um conjunto de mitos e fábulas diante de uma passagem das Escrituras como essa que temos diante de nós, parece soar como irracional e blasfemo. Paulo estava enganado quando mencionou a história da tentação e da Queda? Se estava, era uma pessoa crédula e tola, e talvez tenha se enganado em muitas outras coisas. Se assim fosse, desapareceria sua autoridade como escritor! Podemos descartar semelhante conclusão monstruosa. Mas é bom lembrar que muita incredulidade começa com um desprezo irreverente em relação ao Antigo Testamento.


De qualquer modo, o que o Apóstolo deseja que percebamos na história de Eva e da serpente é que a "astúcia" do diabo a levou a pecar. Ele não disse a ela, simplesmente, que queria causar-lhe dano. Ao contrário, disse a ela que aquilo que estava proibido era bom para comer, agradável aos olhos e desejável para obter sabedoria (veja Gn 3.6). Não teve escrúpulos ao afirmar que ela poderia comer o fruto proibido sem temer a morte. Cegou os olhos de Eva para a pecaminosidade e a transgressão. A persuadiu para afastar-se do claro mandamento de Deus e crer que isso lhe daria benefícios e não ruína. "Com sua astúcia enganou Eva". Bem, é justamente essa "astúcia" que Paulo nos diz que devemos temer na falsa doutrina. Não devemos esperar que as doutrinas falsas se aproximem de nós com aparência de engano, mas sim travestidas de verdade. A moeda falsa jamais entraria em circulação se não fosse semelhante à autêntica. O lobo raramente conseguiria entrar no aprisco se não se disfarçasse de ovelha. O papismo e a incredulidade não causariam muitos estragos se se apresentassem ao mundo com seus verdadeiros nomes. Satanás é um general inteligente demais para dirigir uma campanha dessa forma. Utiliza palavras elegantes e frases de efeito como "catolicidade", "apostolicidade", "unidade", "ordem na Igreja", "ideias corretas a respeito da Igreja", "pensamento livre", "interpretação liberal das Escrituras" e outras semelhantes, e desse modo toma posse das mentes dos incautos. É essa, precisamente, a "astúcia" à qual Paulo se refere no presente texto. Não devemos duvidar que ele havia lido as palavras do Senhor no Sermão do Monte: "Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores" (Mt 7.15).


Peço sua atenção especial com respeito a este ponto. Tal é a característica simplória e ingênua de muitos ministros da nossa época que de fato esperam que as doutrinas falsas pareçam falsas e não entendem que a própria essência da falsidade é sua semelhança com a verdade de Deus. Um jovem clérigo, por exemplo, que desde a sua infância foi educado para ouvir somente o ensino evangélico, recebe um dia o convite para ouvir um sermão pregado por algum eminente mestre de opiniões semicatólicas ou liberais. Em sua ingenuidade, vai à igreja esperando ouvir somente heresias do princípio ao fim. Para seu assombro, escuta um sermão inteligente e eloquente que contém uma grande dose de verdade e tão-somente umas poucas gotas, homeopáticas, de erro. Então surge uma violenta reação em sua mente ingênua. Começa a pensar que seus professores eram gente de mente estreita, intolerantes e duros, e sua confiança neles fica danificada, talvez para sempre. Com frequência, acaba pervertendo-se completamente e finalmente passa a fazer parte dos romanistas ou dos liberais! E por qual motivo? Por um tolo esquecimento da lição do Apóstolo Paulo neste texto: a serpente enganou Eva "com astúcia". Assim Satanás engana as almas incautas do nosso tempo, aproximando-se delas sob o disfarce da Verdade.


Rogo a cada leitor deste artigo que lembre-se disso e mantenha-se alerta. Os falsos mestres têm multidões de seguidores fanatizados que, incansavelmente, os elogiam a todos os que encontram pela frente, dizendo coisas como: "Ele é tão bom, tão amável, tão humilde, tão esforçado, tão abnegado, tão caridoso, tão fervoroso, tão inteligente, tão sincero, que não pode haver perigo nenhum em ouvi-lo. Além disso prega um evangelho agradável e genuíno! Ninguém prega melhor do que ele! Não posso acreditar - e nunca acreditarei - que trata-se de um enganador". Quem não escuta constantemente esse tipo de discurso? Ora, os falsos mestres não se apresentam como tais, mas como "anjos de luz", e são inteligentes demais para dizer tudo o que pensam e planejam fazer. Jamais foi tão necessário lembrar que "a serpente enganou Eva com astúcia".


Deixo esta parte do assunto com a triste sensação de que vivemos em tempos em que sentir receio em relação à sã doutrina não somente é um dever, mas uma virtude. Não é ao fariseu ou ao saduceu declarados que devemos temer, mas sim o fermento dos fariseus e dos saduceus. É a "reputação de sabedoria" que reveste o erro que o torna tão perigoso para muitos (veja Cl 2.23). Parece tão bom, tão justo, tão zeloso, santo e reverente, tão devoto e tão amável que arrasta muitas pessoas bem-intencionadas como uma tsunami. Quem quiser estar a salvo deve cultivar um espírito de sentinela. Não deve se importar se zombam de si, por considerá-lo alguém que "vê heresias em qualquer lugar". Em tempos como estes, não deve se envergonhar de desconfiar do perigo. E se há alguém que zombe dele por isso, bem pode responder: "A serpente enganou Eva com astúcia".


III. A terceira e última lição deste texto nos mostra uma questão a respeito da qual devemos estar particularmente precavidos. Essa questão é denominada "a sincera e pura devoção a Cristo".


Essa expressão é extraordinária e única no Novo Testamento. Há algo claro aqui: a sincera e pura devoção significa aquilo que é puro em contraste com o que foi misturado. Desenvolvendo essa ideia, alguns têm sustentado que a expressão significa "afetos exclusivos para Cristo", isto é, não devemos dividir o nosso afeto entre Cristo e mais alguém. Sem dúvida, é boa teologia, mas não estou convencido de que esse seja o verdadeiro sentido do texto. Prefiro a opinião de que ele refere-se a uma simples doutrina cristológica, sem adulterá-la nem alterá-la, a simples "verdade como é em Jesus", sem acréscimos, substrações nem substituições. Afastar-se do simples e genuíno preceito do Evangelho, seja deixando de lado alguma parte ou acrescentando alguma outra coisa, era o que Paulo queria que os coríntios temessem. A expressão está cheia de significado e parece escrita especialmente para o nosso ensino nestes últimos tempos. Nosso zelo deve ser grande e devemos estar sempre em guarda, para que não nos afastemos do simples Evangelho que Cristo entregou de uma vez por todas aos santos.


A expressão que temos diante de nós é tremendamente instrutiva. O princípio nela contido é de inefável importância. Se amamos nossas almas e queremos mantê-las saudáveis, devemos nos esforçar para jamais nos afastarmos da singela doutrina de Cristo. Uma vez que algo seja acrescentado ou tirado dela, transforma-se o remédio divino em veneno mortal. Que o princípio a guiá-lo seja: "Nenhuma outra doutrina salvo a doutrina de Cristo, nada mais e nada menos!". Aferre-se firmemente a esse princípio e não o solte. Escreva-o em seu coração e não se esqueça dele jamais.


1) Tenhamos claro, por exemplo, que não há um caminho para a Paz exceto o caminho traçado por Cristo. A verdadeira tranquilidade de consciência e a paz interior da alma não procedem jamais de alguma outra coisa que não seja a fé inequívoca em Cristo e em Sua obra completa. A paz por meio da confissão, do ascetismo, da frequência contínua aos cultos ou da participação constante da Ceia do Senhor é uma paz enganosa. As almas somente alcançam descanso quando dirigem-se diretamente a Jesus Cristo, cansadas e sobrecarregadas, descansando n'Ele por meio da fé, da confiança e da comunhão. Nesta questão devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".


2) Tenhamos claro, igualmente, que não há outro sacerdote que possa mediar de alguma maneira entre Deus e nós, além de Jesus Cristo. Ele mesmo disse, e Suas palavras não passarão: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim" (Jo 14.6). Nenhum filho pecador de Adão, sem importar como tenha sido ordenado nem qual seja seu título eclesiástico, pode ocupar o lugar de Cristo ou fazer o que somente Cristo foi chamado para fazer. O sacerdócio é um cargo específico de Cristo e jamais Ele o delegou a outrem. Também nesta questão, devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".


3) Tenhamos claro também que não existe sacrifício pelo pecado exceto o sacrifício único de Cristo na cruz. Não ouça nem por um momento aqueles que dizem que há algum tipo de sacrifício na Ceia do Senhor, alguma repetição da oferta de Cristo na cruz ou alguma oferta de Seu corpo e de Seu sangue sob a forma do pão e do vinho consagrados. O sacrifício pelos pecados que Jesus Cristo ofereceu foi único, perfeito e completo e não passa de uma blasfêmia o querer repeti-lo, "porque, por meio de um único sacrifício, Ele aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados" (Hb 10.14). Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


4) Tenhamos claro que não existe outra regra de fé nem outro juiz nas controvérsias doutrinárias que aquele ao qual Cristo sempre mencionou: a Palavra escrita de Deus. Não deixemos que nenhum homem perturbe nossas almas com expressões vagas como "a voz da Igreja, a Antiguidade primitiva, o julgamento dos primeiros Pais" e esse tipo de discurso grandiloquente. Que o nosso único padrão da Verdade seja a Bíblia, a Palavra escrita de Deus. O que diz a Escritura? O que está escrito na Lei? Como você lê? À Lei e ao testemunho! Estudem cuidadosamente as Escrituras! (veja Rm 4.3; Lc 10.26; Is 8.20; Jo 5.39). Nesta questão, devemos nos manter firmes na "sincera e pura devoção a Cristo".


5) Tenhamos claro que não há outros meios de graça na Igreja que tenham autoridade além dos meios conhecidos que Cristo e os Apóstolos nos deixaram. Consideremos com o maior zelo as cerimônias e rituais de origem humano quando se lhes outorga tão exagerada importância a ponto de as coisas de Deus ficarem relegadas a um segundo plano. As ideias humanas tendem invariavelmente a suplantar os decretos de Deus. Vigiemos para que a Palavra de Deus não seja substituída por vãs invenções humanas. Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


6) Tenhamos claro que não pode ser verdadeiro nenhum ensino a respeito dos sacramentos que atribua aos mesmos um poder que Cristo não menciona. Tenhamos cuidado para não admitir que o batismo e a Ceia do Senhor possam conferir graça ex opere operato, isto é, por meio da mera ministração externa, independentemente do estado do coração daqueles que os recebem. Precisamos lembrar que a única prova de que as pessoas batizadas e os comungantes têm a graça de Deus é a demonstração dessa graça em suas vidas. O fruto do Espírito é a única prova de que nascemos do Espírito e estamos unidos a Cristo, e não a mera recepção dos sacramentos. Nesta questão, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


7) Tenhamos claro também que nenhum ensino a respeito do Espírito Santo é correto a menos que concorde com o ensino de Jesus Cristo. Não devemos ouvir aqueles que asseveram que o Espírito Santo habita realmente em todas as pessoas batizadas, sem exceção, em virtude unicamente de seu batismo, e que a única coisa que deve ser feita é "fomentar" a graça nessas pessoas. O ensino simples e direto de nosso Senhor é que o Espírito Santo habita unicamente naqueles que são Seus discípulos fiéis e que o mundo não conhece, não vê, nem pode receber o Espírito Santo (cf. Jo 14.17). Sua presença interior é um privilégio dos cristãos, e somente deles. Nesta questão, devemos manter firmes a nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


8) Por último, tenhamos claro que nenhuma doutrina pode ser sã se não apresentar a Verdade de forma equilibrada, como fizeram Cristo e os Apóstolos. Evitemos qualquer ensino que enfatize exageradamente a exaltação à Igreja, ao ministério ou aos sacramentos, enquanto grandes verdades como o arrependimento, a fé, a conversão e a santificação são colocadas em lugares inferiores e subordinadas a ritualismos estéreis. Compare tal doutrina com aquela dos Evangelhos, de Atos dos Apóstolos e das Epístolas. Analise os textos, faça seus cálculos. Perceba quão pouco é dito no Novo Testamento a respeito da Igreja, do batismo, da Ceia do Senhor e do ministério, e então julgue você mesmo quais são as proporções na Verdade. Também nesta questão, repito mais uma vez, devemos nos manter firmes em nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


A simples e pura doutrina de Cristo é, pois - sem acréscimos, subtrações ou substituições - a meta à qual devemos almejar. Esse é o ponto do qual devemos evitar qualquer desvio. Podemos melhorar a doutrina de Cristo? Somos mais sábios do que Ele? Podemos crer que Ele deixou de lado alguma coisa importante e que a mesma foi trazida à tona pelas tradições humanas? Arrogamos a nós mesmos o direito de mudar ou corrigir algum decreto de Cristo? Temos consciência de que não devemos declarar como necessária para a salvação coisa alguma que Cristo não tenha ensinado? Precisamos nos precaver de tudo o que possa nos desviar de nossa "sincera e pura devoção a Cristo".


A pura verdade é que nunca será excessivo exaltar o Senhor Jesus Cristo como o Cabeça da Igreja e Soberano sobre todas as coisas, Senhor dos decretos e Salvador dos pecadores. Creio que todos falhamos aqui. Não compreendemos que Rei tão excelso, grande e glorioso é o Filho de Deus e quanta lealdade - lealdade absoluta - devemos a Aquele que não delegou nenhum de Seus ofícios nem deu Sua glória a nenhum outro. Vale a pena lembrar as solenes palavras que John Owen dirigiu à Casa dos Comuns num sermão sobre a grandeza de Cristo. Receio que a Casa dos Comuns ouça poucos sermões como esse na atualidade:


"Cristo é o caminho: os homens sem Cristo são como Caim, errantes pelo mundo. Cristo é a Verdade: sem Ele, os homens são enganadores tal como o diabo, desde a antiguidade. Cristo é a vida: sem Ele, os homens estão mortos em delitos e pecados. Cristo é a luz: sem Ele, os homens estão em trevas e não sabem para onde vão. Cristo é a videira: os homens que não estão em Cristo são ramos cortados e preparados para o fogo. Cristo é a rocha: os homens que não estão construídos sobre Ele serão arrastados pelas torrentes. Cristo é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o Autor e o Consumador, Aquele que começa e Aquele que conclui a nossa salvação. Quem não tem a Cristo, não possui o princípio do bem, e sua infelicidade não terá fim. Oh, bendito Jesus, seria melhor não existir do que existir sem Ti! Melhor não nascer do que morrer sem Ti! Mil infernos não são piores do que a eternidade sem Ti!"


E agora concluirei este artigo oferecendo alguns conselhos a meus leitores. Não os ofereço como alguém que tem um pouco de autoridade, mas como alguém que deseja afetuosamente fazer o bem a meus irmãos. Os ofereço como conselhos que considero úteis para a minha própria alma e que, por isso, aventuro-me a pensar que podem ser úteis para todos.


1) Em primeiro lugar, se desejamos evitar cair na falsa doutrina, precisamos equipar nossas mentes com um profundo conhecimento da Palavra de Deus. Devemos ler nossas Bíblias do princípio ao fim diariamente e com diligência, esforçando-nos para nos familiarizar com seu conteúdo, em constante oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ensine. O desconhecimento da Bíblia é a raiz de todos os erros, e um conhecimento superficial da mesma explica muitas das tristes perversões e deserções da atualidade. Numa época de pressa e correria, de estradas de ferro e telégrafos, estou firmemente persuadido de que muitos cristãos não dedicam tempo suficiente à leitura diária das Escrituras. Estou certo de que há 200 anos atrás os ingleses conheciam melhor a Bíblia do que hoje. A consequência é que muitos são como crianças, levados daqui para lá por qualquer vento de doutrina, presas fáceis de qualquer mestre inteligente do engano. Rogo a meus leitores que lembrem este conselho e atentem para o rumo de suas vidas. É certíssimo que somente o bom estudante do texto bíblico será um bom teólogo e que a familiaridade com os textos essenciais da Bíblia é, como nosso Senhor demonstrou na tentação, a melhor das salvaguardas contra o erro. Procure equipar-se, portanto, com a espada do Espírito e treine suas mãos para utilizá-la. Sou muito consciente de que não existe um caminho fácil para o conhecimento da Bíblia. Sem diligência e esforço ninguém chega a ser "poderoso nas Escrituras". "A justificação" - disse Charles Simeon - "é pela fé, mas o conhecimento da Bíblia vem pelas obras". Mas de uma coisa estou certo: não há trabalho que seja melhor recompensado do que um estudo diário e esforçado da Palavra de Deus.


2) Em segundo lugar, se desejamos manter um caminho reto como ministros do Evangelho nos tempos em que vivemos, conheçamos profundamente os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra. Esses artigos são a confissão autorizada de nossa igreja, e a verdadeira prova que todo aspirante a clérigo deveria submeter-se. Como a Confissão de Fé de Westminster, nossos Trinta e Nove Artigos são uma barreira eficiente contra a tendência atual de voltar ao catolicismo romano.


3) O terceiro e último conselho que desejo oferecer é o seguinte: precisamos nos familiarizar profundamente com a História da Reforma. Nossa história tem sido injustamente esquecida e milhares de ministros do Evangelho têm, hoje, uma noção muito pobre de tudo quanto devemos aos reformadores. Muitos pagaram com o martírio para que hoje possamos ser uma igreja livre. É preciso ter um conceito claro sobre a situação de trevas e superstição na qual viviam nossos antepassados e sobre a luz e a liberdade que foram introduzidas pela Reforma. Devido ao desconhecimento da História, sofremos hoje com movimentos favoráveis ao catolicismo romano e ideias ingênuas e pueris sobre a verdadeira natureza do papado. É hora de mudar as coisas. A origem de grande parte da apatia atual com respeito à romanização da Igreja pode ser encontrada na mais crassa ignorância tanto sobre a verdadeira natureza do papismo quanto sobre a História da Reforma Protestante.


A ignorância, depois de tudo, é uma das melhores amigas das falsas doutrinas. O que qualquer época precisa é de mais luz. Multidões são extraviadas pelo papismo ou caem na incredulidade por pura falta de leitura e informação. Repito uma vez mais: se os homens estudassem com atenção a Bíblia, as confissões de fé e a História da Reforma, não temeriam que suas mentes fossem corrompidas e se desviassem da sincera e pura devoção a Cristo.


John Charles Ryle (1816-1900), "um homem de granito, com o coração de uma criança", foi o primeiro bispo de Liverpool, escritor prolífico e defensor do caráter protestante da Igreja da Inglaterra. Mais de 100 anos depois de sua morte, seus escritos ainda falam poderosamente aos cristãos da atualidade. 


Fonte: RYLE, J. C. Advertencias a las Iglesias. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2003, pp. 114-131.


Traduzido do espanhol por Fábio Vaz.

sábado, 5 de maio de 2012

DIGA NÃO À IGNORÂNCIA!

Muitas pessoas acham que podem servir a Deus sem estudo diligente, sério e esforçado das Escrituras. Creem que "diplomas e títulos" não valem a pena. Tenho pena dessa gente, porque preferiram a ignorância (que nunca é santa) ao mergulho profundo e revigorante na Palavra de Deus. Estudamos a Bíblia e obtemos títulos e diplomas, não por causa dos títulos e dos diplomas, mas porque a Bíblia é digna de ser estudada e cada vez mais apreciada. Além disso, ao estudar a Palavra de Deus cumprimos a ordem de Jesus: "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de TODO O SEU ENTENDIMENTO" (Mateus 22.37, ênfase acrescentada). E seguimos o exemplo de Paulo: "Orarei com o espírito, MAS TAMBÉM ORAREI COM O ENTENDIMENTO; cantarei com o espírito, MAS TAMBÉM CANTAREI COM O ENTENDIMENTO" (1Co 14.15, ênfase acrescentada). Quem despreza o estudo bíblico deveria abandonar o ministério cristão, pois está debochando do Deus da Palavra e desprezando a Igreja do Senhor, a qual Ele comprou com Seu próprio sangue. Diga não à ignorância e aos promotores da ignorância!

sábado, 28 de abril de 2012

AGÊNCIAS DA ONU ESTIMULAM ABORTOS DE SELEÇÃO SEXUAL E DESVALORIZAÇÃO DAS MULHERES


Por Wendy Wright.
NOVA IORQUE, 9 de março (C-FAM). As agências mais importantes da Organização das Nações Unidas estão ativamente promovendo duas principais causas do imenso desequilíbrio sexual da Ásia, acusou uma especialista de políticas populacionais nesta semana durante uma conferência de mulheres da ONU.
Falando num painel durante a Comissão sobre a Condição das Mulheres que a ONU faz todo ano, a Dra. Susan Yoshihara identificou três razões para o fenômeno da “escassez de meninas” na China, Índia e que está se espalhando para outras nações. As causas principais para as matanças em massa, disse ela, são o acesso a tecnologias que facilitam o aborto, uma preferência por filhos e o desejo dos pais ou do governo por famílias pequenas.
Entre 33 milhões e 160 milhões de meninas não estão vivas hoje devido ao aborto ou ao infanticídio. “As meninas são mortas porque são meninas. Dificilmente isso é sinal do avanço das mulheres”, disse a Dra. Yoshihara. Contudo, as agências da ONU incumbidas de promover direitos humanos, saúde, crianças e mulheres agressivamente promovem duas das três razões para os abortos de seleção sexual: famílias de tamanho pequeno e abortos.
Numa declaração conjunta sobre “Prevenção à seleção sexual por preconceito sexual”, o Escritório do Alto Comissário de Direitos Humanos, o UNICEF, o FNUAP, a Organização Mundial de Saúde e Mulheres da ONU afirmam falsamente que os países são obrigados a tratar os abortos de seleção sexual sem negar acesso aos abortos, declarando que seria “mais uma violação dos direitos dela à vida e saúde conforme estão garantidos em tratados internacionais de direitos humanos, e empenhados em acordos de desenvolvimento internacional”.
Não existe, nos tratados ou acordos internacionais, nenhuma obrigação de aborto.
O problema é horrendo. Em geral, a China tem 120 meninos para cada 100 meninas. Em algumas partes da China, esse número é 150 meninos para cada 100 meninas que nascem. Na Índia, a “desejabilidade de meninas cai com cada filho”, com os pais “não medindo nenhum esforço para garantir que seu segundo bebê seja um filho do sexo masculino”, disse a Dra. Yoshihara.
Décadas atrás, defensores do controle populacional financiados por ricas fundações ocidentais implementaram programas de grande escala em países visados como China e Japão. De acordo com Yoshihara, eles investiram em métodos de seleção sexual porque reconheceram os efeitos multiplicadores de selecionar meninas na população. O aborto se tornou o método preferido de redução populacional, considerando que os agentes poderiam identificar uma mulher grávida com mais facilidade do que identificam uma mulher que está pensando em ficar grávida.
As consequências dos programas de controle populacional carregam pesados custos sociais e de segurança internacional. Menos mulheres nas sociedades estimulam sequestros, vários homens possuindo a mesma mulher e tráfico humano. A rápida queda na fertilidade significa menos pessoas para sustentar uma crescente população idosa. Reconhecendo a iminente falta de jovens para preencher fileiras militares, líderes governamentais poderão ter atitudes agressivas para com outras nações enquanto puderem.
Na China, diariamente 500 mulheres cometem suicídio, relatou Tessa Dale de “All Girls Allowed” no painel patrocinado por REAL Women do Canadá. Tessa descreveu casos de abortos forçados de terceiro trimestre que matam tanto mãe quanto filho, e de uma mãe que foi forçada a escolher entre entregar uma de suas duas filhas ou ser esterilizada. Desejando um filho do sexo masculino, ela não conseguia decidir. Autoridades governamentais então tomaram sua filha mais nova.
Meninas são raptadas com a idade de 2 ou 3 anos, enquanto são novas demais para imaginar como voltar para casa.
“All Girls Allowed” fornece apoio para famílias chinesas que acolhem suas filhas, especificamente trabalhando em vilas com desequilíbrios sexuais que chegam até a 170 meninos para 100 meninas.
Líderes da ONU apresentam falsas escolhas para as nações em desenvolvimento, comentou a Dra. Yoshihara. Os países precisam decidir entre desenvolvimento e crianças; promover direitos humanos (definidos como incluindo aborto) ou ter famílias.
“É uma escolha mortal”, declarou ela.
Traduzido por Julio Severo. Fonte: Friday Fax.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

NO BRASIL, A MORTE VESTE TOGA


 “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto.”
 Rui Barbosa.

Rui Barbosa foi um homem à frente de seu tempo. Suas palavras demonstram isso com clareza. Rui Barbosa fala hoje, mesmo depois de morto suas declarações fazem eco, na já carcomida consciência, se é que há sobra de alguma, dos jurisprudentes atuais.

Com base na liberdade de expressão e no direito de contradizer o que já se tem por estabelecido e certo, e também com base na patologia da contradição dos defensores do aborto, farei uma avaliação do assunto.

O Supremo Tribunal Federal aprovou o aborto de fetos anencefálicos, e para isso, se valeu de argumentos filosóficos sobre o que é vida e sobre o início da vida. Todavia, a ciência não se presta a responder a estas questões de cunho existencial. Para substanciar suas teses, os ministros debateram sobre a vida e vida para o direito. No argumento da Ministra Rosa Weber, que votou a favor da descriminação, à anencefalia não se aplica o conceito de aborto, pois o aborto caracteriza a interrupção da vida, o que é incompatível com a anencefalia.

Arx Tourinho, relator da matéria na OAB, e Conselheiro Federal pela Bahia, argumenta que a interrupção da gestação de anencefálicos não é aborto; ressalta ainda que a polêmica deve-se a pessoas desatentas aos princípios jurídicos; e a defesa pela vida de um anencefálico, privando a mãe de um procedimento cirúrgico para a expulsão do feto, na verdade, é pratica medieval.

O supracitado tem como base de sua argumentação, o fato de que a mulher tem direito à saúde e ainda, evocando o direito à dignidade da pessoa humana, alega em seu sentir, que a interrupção de gravidez de feto anencefálico não é aborto. Pois o mesmo não passa de uma patologia. Afirma, porém, que a OAB está defendendo a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social. Assim Tourinho interpreta o artigo 44,I da lei 8.906/94.

Ademais, Arx usa certas declarações científicas, onde anencefálicos são classificados como: “Patologia”, “representação do subumano por excelência”, “mal formado”. E ainda, o anencefálico é um ser subumano, sem cérebro, com forma de gente, mas sem a essência do humano. E que diante de fatos comprovados e do princípio da dignidade da pessoa humana, a mulher tem o direito de interrupção terapêutica de uma gravidez, marcada pela patologia, que constrange e perturba a ciência e os homens.

Diante de tais argumentos far-se-ia difícil defender um desvalido, levado ao matadouro? De maneira nenhuma. Pois o que é aparente nem sempre corresponde aos fatos. Veremos, pois então.

A ciência e o início da vida

Qualquer pessoa que esteja familiarizada com o caso Roe versus Wade (caso de maior repercussão sobre a questão do aborto nos Estados Unidos da América do Norte), lembrará que a Suprema Corte daquela nação julgou favorável ao aborto. Naquele momento, um grupo de 220 médicos, cientistas e professores entregou um breve “amicus curiae”.

No sumário apresentado, logo foi exposto que a vida humana começa na concepção, o que através da ciência moderna – a embriologia, a medicina fetal, a genética, a perineonatologia e a biologia em geral, fundamentam que já na sétima semana, a criança (ainda não nascida) possui feições familiares externas a todos os órgãos internos de adulto.

O Congresso norte-americano, no ano de 1981, promoveu audiências que giravam em torno da pergunta: “Quando começa a vida?” o professor de Medicina, Micheline Mathews-Roth, de Harvard, enfatizou que: “na biologia e na medicina, é fato aceito que a vida de um organismo individual reproduzida por meio de reprodução sexual tem início na concepção...” (Os fatos sobre o aborto, pg 13).

O médico deve  sempre ter presente a obrigação da preservação da vida humana.

A implicação simples da questão do debate sobre quando começa a vida humana é simples; se começa na concepção, logo, aborto nada mais é do que assassinato, isto é, matar vida humana.

 O Dr. Bernard Nathanson relata como os avanços da tecnologia moderna o levaram a mudar seu posicionamento, de favorável ao aborto (o que de fato se comprova pelo fato de que o médico já havia realizado mais de 60.000 abortos), passando a ser contrario ao infanticídio, sendo hoje um oponente feroz ao aborto – o que o levou a mudar de ideia não foi a emoção ou a filosofia ou simplesmente pensamento religioso – mas a medicina fetal (Os fatos sobre o aborto, p.18).

Do mesmo modo como aconteceu nos Estados Unidos da América, no Brasil também foram feitas audiências públicas, realizadas em 2008, para discutir a questão do aborto - no caso específico, de anencefálicos. Louvável foi a participação da CNBB, como: “amicus curiae” onde tomou a palavra o Padre Luiz Antônio Bento (Doutor em Bioética pela Universidade Lateranense e Academia Alfonsiana de Roma, Assessor Nacional da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB, e autor do livro Bioética).

Dr. Luiz Antonio, ao dirigir-se ao relator, ministro Marco Aurélio, declara:

“Só pelo fato de pertencer à espécie humana, esse indivíduo (o Anencefálico) tem uma dignidade; e é essa dignidade que queremos reafirmar, que precisa ser tutelada, que precisa ser respeitada. Assim, o feto anencefálico é um ser humano vivente e sua reduzida expectativa de vida não nega os seus direitos, a sua identidade. O fato de ter mais ou menos tempo de existência não faz com que ele deixe de ser sempre um ser humano, que precisa de cuidado, sobretudo neste caso” (Audiência pública do dia 26 de Agosto de 2008).

Acertadamente, Padre Antonio coloca a o aborto Eugênico, como uma espécie de seleção racista, o qual deve ser severamente desprezado:

“O aborto seletivo é filho desta cultura que vê uma vida que não responde aos seus parâmetros como um obstáculo e uma ameaça. O aborto eugênico é uma ação discriminatória e - digamos também - racista, com a intenção de se suprimir uma vida que não está em conformidade com a que se espera, porque vem marcada por uma anomalia; essa se configura, verdadeiramente, como uma eutanásia pré-natal” (Ibidem).

O fundamento usado pelo relator da AOB e por alguns ministros do STF como pano de fundo de suas argumentações favoráveis ao aborto de anencefálicos firma-se no argumento do feto visto como uma “patologia”, mal formado e no argumentar de alguns médicos, subumano.

A conclusão lógica dessa linha de raciocínio é que o feto, não sendo humano em sua natureza, talvez em sua forma, não pertence à classe de amparados pelo direito à vida e proteção legal do Estado. Todavia, o Doutor Rodolfo Acatauassú, Mestre e Doutor em cirurgia geral pela UERJ, defende o contrário:

“Se o feto fosse uma malformação não humana, se o feto nunca pudesse nascer vivo, se a criança tivesse em morte encefálica, a premissa da ADPF poderia ter algum embasamento; mas, como o feto tem o genoma humano, todos os dados genéticos estão presentes na vida desse indivíduo, como o feto pode nascer vivo, como a criança não está em morte encefálica, a premissa da ADPF não tem embasamento” (Rodolfo apud Luiz Antônio Bento – Em audiência pública dia 26 de Agosto de 2008).

Se o rumo jurídico seguir a tendência atual, embasado em argumentos falaciosos, filosoficamente travestidos de avanço social e científico, brincando com a vida, filosofando sobre o que é ou não é ser humano; se a retórica falaciosa prevalecente tomar vulto, nos próximos anos feto nenhum será considerado um ser humano, a menos que seja desejado pela mãe, perfeitamente saudável (sem doença alguma – sem nenhuma má formação). O seletivismo racista, hitleriano, novamente encontrou amparo entre os homens atuais. Como diria Ronald Reagan: “todos os que defendem o aborto, já nasceram”.

A sobrevivência dos mais aptos

Com base na seleção natural da sobrevivência dos mais aptos, pergunta-se então: por que defender as baleias? Ou qualquer animal em extinção? Deixe a vida tomar seu rumo natural.

Se hoje, os anencefálicos não são considerados humanos, por motivo de sua deficiência física, simplesmente no entender dos juízes e advogados atuais, o que poderá acontecer no futuro aos portadores de outras deficiências, tais como os autistas? Ou os que nascem com a “Síndrome de Down”? E tantas outras anomalias ou enfermidades – será que num futuro não muito distante, estes que tem o amparo legal por parte do Estado não serão considerados também como patologia? E dignos apenas do constrangimento e espanto para com a ciência e para os homens, como são considerados os bebês anencefálicos hoje?

Incompetência dos competentes – é o Legislativo quem faz leis, não o Judiciário.

Onde está o Legislativo brasileiro neste momento? Poucos são os que se manifestam diante daqueles que decretam a permissão da morte, presumindo a não vida.

Se o procedimento abortivo tem por finalidade abreviar o sofrimento da mãe, quem, todavia, pensará na morte de um indefeso que foi legado ao lixo por não ser perfeito em sua constituição física? Um ser humano de fato é condenado pelo filosofar da ciência a uma subumanidade?!

Defendem-se baleias, ursos, tigres e etc. Porém um ser humano deficiente, quem defenderá? Debates bastam para determinar onde começa a vida? Quem pode tirá-la? E quem deve ser classificado como ser humano?

Diante da evidente situação de usurpação de competências, o que faz o povo? O que fazem os religiosos? O que fazem os advogados?

Noticiando o fato, o jornal do Brasil veiculado no dia 16 de abril, traz elencados os pareceres dos ministros no caso, o qual, aqui, refere-se ao ministro Cezar Peluso, último a votar, de acordo com o regimento, o presidente da Corte foi o segundo voto divergente. Começou por dizer que: “a vida não é conceito artificial criado pela ciência jurídica para efeitos práticos”, já que “a vida e a morte são fenômenos pré-jurídicos dos quais o direito se apropria para determinados fins”. E frisou: “Todos os fetos anencéfalos, a não ser que estejam mortos, têm vida. Se o feto não estivesse vivo, não poderia morrer”. Assim, ainda segundo Cezar Peluso, “o aborto provocado de feto anencéfalo é conduta vedada, de modo frontal, pela ordem jurídica, e esta Corte não tem poder ou competência para abolir ou atenuar o crime de aborto”.

Argumentos com base no silencio – já que o Congresso nada diz, faremos as leis?

Desde o ano de 1997 e antes disso ainda, projetos de lei sobre o aborto vagueiam de lá para cá no Congresso nacional. E por diversas razões não passou. Porém, alguns argumentam que, por vias de silêncio do Legislativo, outro poder deve tomar a dianteira sobre a questão e levá-la adiante. O silêncio neste caso pode muito bem ser visto como a não aceitação do poder Legislativo em sancionar tal absurdo sórdido chamado aborto. Neste caso o silêncio é uma negativa.

O silêncio ao posicionar-se diante de tais usurpações não seria conivência?

Porém, enviei e-mails para vários deputados, e até o presente momento nenhum foi respondido. E até esta data não tenho visto manifestação pública relevante sobre o caso, o que leva a supor que neste caso o silêncio deva ser conivência.

O que dizem:

Ives Gandra da Silva Martins:

“Estou convencido - apesar de ser eu um modesto advogado de província e ele, brilhante guardião da Constituição - de que a decisão é manifestamente inconstitucional. Macula o artigo 5º da Lei Suprema, que considera inviolável o direito à vida. Fere o § 2º do mesmo artigo, que oferta aos tratados internacionais que cuidam de direitos humanos a condição de cláusula imodificável da Constituição. Viola o artigo 4º do Pacto de São José, tratado internacional sobre direitos fundamentais a que o Brasil aderiu, e que declara que a vida começa na concepção.” (fonte: http://www.feth.ggf.br/Aborto.htm)

Ministro Ricardo Lewandowski

Votou contra a liberação do aborto de feto anencéfalo"Não é lícito ao maior órgão judicante do país envergar as vestes de legislador criando normas legais. [...] Não é dado aos integrantes do Poder Judiciário promover inovações no ordenamento normativo como se parlamentares eleitos fossem." (Fonte: 
http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/04/veja-como-votaram-os-ministros-do-stf-sobre-aborto-de-feto-sem-cerebro.html)

Implicações religiosas

Em um país em que sobeja a corrupção em todas as esferas sociais, impostos elevadíssimos corroem o povo. A governabilidade já chegou a patamar de conchavo e os assim chamados “valeriodutos” inspirando lavagens de dinheiro a nível nacional. Cuecas forradas com o fruto da corrupção; sanguessugas estão à solta e como sempre tudo acaba em pizza.

A “Marcha contra a corrupção” ocupa pouco espaço na mídia e na vida nacional, alguns políticos ainda acham seu salário pequeno e no apagar das luzes votam seus aumentos salariais.

Tartarugas marinhas têm sua preservação e aos ovos de sua prole são asseguradas vultosas somas, visando proteção. Diante do fato de um animal raro abatido, a prisão é certa.

Porém a vida humana é pretensiosamente relegada, um pesar, suspiro e nada mais. Então tudo passa e vamos ao próximo caso, vivendo de escândalo em escândalo e desta forma o povo se embrutece e paralisa. A sociedade atual esta demonstrando o que tem aprendido com reality shows.

Não há saber sem pressupostos, não há fundamento argumentativo que em algo não se fundamente. Pois bem, meu argumento alicerçou-se na base de toda a justiça – A Bíblia, e sua ética.

Nos Estados Unidos, os protestantes. No Brasil os católicos. No ocidente de uma forma geral, os cristãos estão sendo relegados a uma esfera de cidadãos de segunda classe. Seu ponto de vista não é respeitado, seus valores são desprezados.

O Salmo 139 enfatiza que Deus vê o ser humano no ventre de sua mãe, quando ainda substância informe, e que Deus formou o espírito do homem dentro dele (Zacarias 12.1), segundo o traducionismo teológico, não herdamos somente características genéticas, mas também a alma. Somos considerados humanos desde o momento em que somos substância ainda informe, que momento seria esse?

Visto que Deus deu a vida, somente Ele pode tirá-la e ninguém mais, quem poderá dizer que “não é humano” aquele que tem em seu DNA a carga genética da humanidade?

As cartas foram lançadas sobre o carmesim manto dos fetos que serão assassinados com a corroboração da lei. A Bíblia aconselha neste momento ainda:

Provérbios 31.8,9:

“Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados.”

Salmo 82.2-4:

“Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios? Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.”

Finalmente:

Provérbios 24.11,12:

“Livra os que estão sendo levados para a morte e salva os que cambaleiam indo para serem mortos. Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?”

domingo, 22 de abril de 2012

SEM FALSIFICAR A PALAVRA

Por J. C. Ryle.

"Ao contrário de muitos, não negociamos a palavra de Deus visando lucro; antes, em Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus" (2Coríntios 2.17, NVI). 

Não é pouca coisa falar a uma congregação de almas imortais sobre as coisas de Deus. Mas a responsabilidade mais importante de todas é falar a um grupo de ministros do Evangelho como o que vejo diante de mim neste momento. Atravessa-me a mente a terrível sensação de que uma só palavra equivocada que possa arraigar-se em algum coração frutifique e no futuro, desde algum púlpito, possa causar danos cujo alcance desconhecemos.

Mas há ocasiões em que a verdadeira humildade pode ser vista não tanto nas confissões em  voz alta de nossa fraqueza, mas sim quando esquecemos verdadeiramente de nós mesmos. Desejo, portanto, esquecer meu ego nesta ocasião ao dirigir minha atenção a esta passagem das Escrituras. Se não digo muita coisa sobre meu sentimento de insuficiência, creia que não é porque não o tenha.

A expressão grega traduzida como "negociamos" deriva de uma palavra cuja etimologia não encontra consenso entre os lexicógrafos. Refere-se ou a um comerciante que não leva seu negócio honradamente ou a um produtor de vinhos que adultera o vinho que põe à venda. Tyndale a traduz como: "Não somos como aqueles que mutilam e modificam a Palavra de Deus". Na versão Rhemish lemos: "Não somos como muitos, que adulteram a Palavra de Deus". Na Versão Autorizada inglesa, numa nota à margem, lemos: "Não somos como muitos, que utilizam com engano a Palavra de Deus".

Na construção dessa frase, o Espírito Santo inspirou Paulo para que declarasse a verdade de forma negativa e positiva. Esse tipo de construção adiciona claridade ao sentido das palavras e as torna inequívocas, além de intensificar e fortalecer a asseveração nelas contida. Dão-se casos de construções similares em outras três extraordinárias passagens bíblicas, duas em referência ao batismo e uma com respeito à questão do novo nascimento (cf. Jo 1.13; 1Pe 1.23; 3.21). Percebemos, portanto, que nosso texto contém lições tanto positivas quanto negativas para a instrução dos ministros de Cristo. Umas coisas devem ser evitadas. Outras, devem ser procuradas.

A primeira lição negativa é uma clara advertência contra a falsificação ou a utilização enganosa ou "comercial" da Palavra de Deus. O Apóstolo diz que "muitos" procedem dessa forma, assinalando que mesmo em sua época havia alguns que não tratavam a verdade de Deus com honra e fidelidade. Aqui temos uma resposta contundente àqueles que afirma que a "igreja primitiva" era de uma pureza exemplar. O mistério da iniquidade já estava operando. A lição é que devemos evitar qualquer asseveração falsa com respeito à Palavra de Deus, a qual fomos encarregados de pregar. Não devemos acrescentar-lhe nada. Não devemos tirar-lhe nada.

Muito bem, quando pode-se dizer que estamos falsificando a Palavra de Deus na atualidade? Quais são os recifes e os bancos de areia que devemos evitar se não quisermos fazer parte dos "muitos" que manipulam enganosamente a verdade de Deus? Algumas indicações a esse respeito podem ser mui úteis.

Falsificamos a Palavra de Deus da forma mais perigosa quando lançamos qualquer sombra de dúvida sobre a inspiração plena das Sagradas Escrituras. Isso não é meramente corromper o vaso, mas sim contaminar toda a fonte. Isso não é meramente poluir o cântaro, mas sim envenenar todo o poço. Uma vez enganados neste ponto, toda a essência de nossa religião estará em perigo. É uma fissura no fundamento. É um verme devorador na raiz de nossa teologia. Uma vez que permitirmos que esse  verme ataque a raiz, logo o tronco, os galhos e as folhas começarão a decair pouco a pouco. Sou bem consciente de que a questão da inspiração está rodeada de certas dificuldades. Mas em minha humilde opinião, apesar de certas questões que não podemos resolver agora, a única postura adequada e segura que podemos adotar é esta: que cada capítulo, cada versículo e cada palavra da Bíblia são inspirados por Deus. Jamais deveríamos abandonar nenhum princípio teológico, como também não abandonamos os princípios científicos devido a aparentes dificuldades que não podemos eliminar na atualidade.

Permitam-me mencionar uma analogia sobre esse importante axioma. Aqueles que estão familiarizados com a astronomia sabem que antes do descobrimento de Netuno havia dificuldades que preocupavam muito a maioria dos astrônomos a respeito de aberrações na órbita do planeta Urano. Essas aberrações confundiam as mentes dos cientistas e alguns deles indicaram que poderia ser demonstrado, por meio delas, que o sistema newtoniano não era correto. Mas, naquela época, um conhecido astrônomo francês chamado Leverrier leu, ante a Academia de Ciências, um artigo no qual estabelecia o grande axioma segundo o qual não seria apropriado renunciar a um princípio científico por causa de algumas dificuldades que não podiam, no momento, ser explicadas. Ele disse: "Não podemos explicar as alterações da órbita de Urano por enquanto. Mas estamos certos de que mais cedo ou mais tarde demonstraremos que o sistema newtoniano está correto. Talvez alguém descubra algo um dia que prove que essas alterações orbitais de Urano são perfeitamente explicáveis, sem descartar o sistema de Newton". Alguns anos depois, os angustiados olhos dos astrônomos descobriram, finalmente, o último grande planeta: Netuno. E foi comprovado que as alterações na órbita de Urano eram causadas pela presença de Netuno, e que o astrônomo francês havia estabelecido um princípio científico sábio e correto: afinal, Newton continuava certo. A aplicação desta história é óbvia.

Tenhamos o cuidado de não renunciar a nenhum princípio teológico básico. Não renunciemos ao grande princípio da inspiração plena das Escrituras por causa de algumas dificuldades que possam surgir diante de nós. Chegará o dia em que tais dificuldades serão resolvidas. Enquanto isso, podemos estar certos de que as dificuldades que enfrentam quaisquer outras teorias da inspiração são muito maiores do que as que nós enfrentamos.

Em segundo lugar, falsificamos a Palavra de Deus quando fazemos afirmações doutrinárias equivocadas. Fazemos isso ao acrescentar à Bíblia as opiniões da Igreja ou de "Pais" da Igreja como se tivessem a mesma autoridade das Escrituras. Fazemos isso quando subtraímos coisas da Bíblia a fim de agradar aos homens ou quando, por um sentimento de falsa liberalidade, evitamos qualquer afirmação bíblica que possa parecer radical, dura ou estreita. Falsificamos a Palavra de Deus quando tentamos suavizar qualquer coisa que se ensine com respeito ao castigo eterno ou à realidade do inferno. Fazemos isso quando elevamos certas doutrinas a alturas desproporcionais. Todos temos doutrinas favoritas e nossas mentes estão constituídas de tal forma que é difícil ver claramente uma verdade sem esquecer que existem outras verdades igualmente importantes. Não devemos esquecer a exortação paulina de ministrar "de acordo com a medida da fé". Falsificamos a Palavra de Deus quando exibimos um desejo excessivo de encobrir, defender ou maquiar doutrinas como a da justificação pela fé sem as obras da Lei por medo da acusação de antinomismo; ou quando fugimos de afirmações sobre a santidade e a santificação por medo de sermos considerados legalistas. Falsificamos a Palavra de Deus quando evitamos utilizar a linguagem bíblica ao mencionar as doutrinas. Temos a tendência de evitar termos como "novo nascimento", "eleição", "adoção", "conversão", "segurança" e substituí-los por expressões inócuas, como se tivéssemos vergonha da linguagem clara e direta da Bíblia.

Em terceiro lugar, falsificamos a Palavra de Deus quando a aplicamos de forma equivocada. O fazemos ao não discernir os diferentes tipos de pessoas em nossas congregações, quando nos dirigimos a todos como se fossem salvos em razão de seu batismo ou de sua associação com a Igreja e não traçamos uma linha entre os que têm o Espírito e os que não O têm. Não somos propensos a deixar de lado os chamados claros aos não convertidos? Quando temos 800 ou 2000 pessoas diante de nosso púlpito e sabemos que uma grande parte delas não é salva, não corremos o risco de manejar defeituosamente a Palavra de Deus em nossas exortações práticas, ao não deixar suficientemente claro o que a Bíblia diz aos diversos tipos de pessoas que formam a nossa congregação? Falamos claramente aos pobres, mas falamos claramente também aos ricos? Falamos claramente ao nos dirigir às classes altas? Este é um ponto respeito ao qual temo que necessitamos examinar nossas consciências.


Passemos agora às lições positivas do nosso texto: "antes, em Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens enviados por Deus".


Deveríamos ter o propósito de falar "com sinceridade" - sinceridade de propósito, de coração e de motivações - e de falar como quem está profundamente convencido da verdade que proclama, como quem possui fortes sentimentos e um terno amor por aqueles a quem se dirige.


Deveríamos ter o propósito de falar "como homens enviados por Deus". Deveríamos nos esforçar para nos sentir como homens que foram encarregados de falar em nome de Deus e em Seu lugar. Em nosso pavor de cair no romanismo, frequentemente esquecemos as palavras do Apóstolo: "Honro o meu ministério". Esquecemos quão grande é a responsabilidade do ministro do Novo Pacto e quão terrível é o pecado daqueles que, quando um verdadeiro ministro de Cristo se dirige a eles, recusam-se a receber a sua mensagem e endurecem seus corações.


Deveríamos ter o propósito de falar "diante de Deus". Não devemos perguntar a nós mesmos  o que as pessoas pensam de nós, mas o que Deus pensa de nós. Latimer recebeu, em certa ocasião, o chamado para pregar diante de Henrique VIII e começou seu sermão da seguinte forma: "Latimer! Latimer! Lembre-se de que você está falando diante do excelso e poderoso rei Henrique VIII; diante daquele que tem poder para enviá-lo à prisão, diante daquele que tem poder para ordenar que você, Latimer, seja decapitado. Latimer, tenha cuidado para não dizer nada que ofenda os ouvidos reais!". Então, depois de uma pausa, Latimer prosseguiu: "Latimer! Latimer! Lembre-se de que você está falando diante do Rei dos Reis e do Senhor dos Senhores, diante d'Aquele perante quem o próprio rei Henrique VIII deverá apresentar-se um dia; diante d'Aquele que você mesmo deverá prestar contas um dia! Latimer, seja fiel ao Senhor e proclame toda a Palavra de Deus!". Oh! Que seja este o espírito com que nos retiramos de nossos púlpitos: não preocupados pensando se os homens ficaram satisfeitos ou insatisfeitos, nem se estarão nos elogiando ou nos difamando; mas preocupados, sim, com o testemunho de nossa consciência de que temos falado diante de Deus.


Por último, deveríamos ter o propósito de falar "em Cristo". O significado dessa expressão não está claro. Grotius diz o seguinte: "Devemos falar em Seu nome, como embaixadores de Cristo". Mas Grotius tem pouca autoridade. Beza diz: "Devemos falar sobre Cristo, a respeito de Cristo". Isso é boa doutrina, mas dificilmente representa o significado exato dessas palavras. Outros dizem: devemos falar como unidos a Cristo, como aqueles que receberam a misericórdia de Cristo e cujo único direito de dirigir-se aos demais provém de Cristo. Outros dizem: devemos falar através de Cristo, com a força de Cristo. Talvez esse seja o melhor sentido. A expressão no grego corresponde à de Filipenses 4.13: "Tudo posso naquele que me fortalece". Seja qual for o significado que atribuímos a essas palavras, uma coisa é bem clara: devemos falar em Cristo, como quem recebeu misericórdia; como quem não deseja exaltar-se a si mesmo, senão ao Salvador; como quem não se preocupa com o que os homens possam dizer, mas somente com que Cristo seja glorificado e magnificado em seu ministério.


Em resumo, todos deveríamos nos perguntar: Alguma vez manipulamos enganosamente a Palavra de Deus? Compreendemos o que é falar da parte de Deus, diante de Deus e de Cristo? Permitam-me fazer-lhes perguntas diretas. Há algum texto na Palavra de Deus que não conseguimos expor? Há alguma afirmação na Bíblia que evitamos falar à nossa congregação não porque não a entendemos, mas porque contradiz alguma ideia que temos a respeito da Verdade? Se é assim, perguntemos a nossas consciências se estamos manipulando enganosamente a Palavra de Deus.


Há algo na Bíblia que estamos deixando de lado porque tememos parecer duros e ofender parte de nossa audiência? Há alguma afirmação, seja doutrinária ou prática, que mutilamos ou desmembramos ou escondemos? Se é assim, estaremos tratando com a Palavra de Deus com a honra devida?


Oremos para que sejamos guardados de falsificar a Palavra de Deus. Que nem o temor ao homem nem o favor dos homens nos induzam a rejeitar, evitar, mudar, mutilar ou maquiar texto algum da Bíblia. Sem dúvida, quando falamos como embaixadores de Deus, devemos fazê-lo com santa ousadia. Não temos motivo algum para nos envergonhar de qualquer afirmação que façamos desde nossos púlpitos sempre que esteja de conformidade com as Escrituras. Com frequência tenho pensado que um dos grandes segredos da maravilhosa honra que Deus tem colocado sobre um homem que não pertence à nossa denominação (refiro-me ao Sr. Spurgeon) é a extraordinária coragem e confiança com que ele fala no púlpito às pessoas a respeito de seus pecados e do estado de suas almas. Não se pode dizer que ele o faça com medo de alguém ou para contentar alguém. Parece dar o que corresponde a todo tipo de ouvinte: ao rico e ao pobre, ao nobre e ao camponês, ao erudito e ao analfabeto. Trata a cada um com claridade, segundo a Palavra de Deus. Creio que essa mesma coragem tem muito a ver com o sucesso que Deus tem dado ao seu ministério. Não nos envergonhemos de aprender uma lição dele nesse aspecto. Vamos aos nossos púlpitos e façamos o mesmo.

John Charles Ryle (1816-1900), "um homem de granito, com o coração de uma criança", foi o primeiro bispo de Liverpool, escritor prolífico e defensor do caráter protestante da Igreja da Inglaterra. Mais de 100 anos depois de sua morte, seus sermões e escritos ainda falam poderosamente aos cristãos de hoje. O sermão acima foi pregado em Weston-super-Mare, em agosto de 1858, por ocasião do Aggregate Clerical Meeting, sob a presidência do arquidiácono Law, registrado em notas taquigráficas por um dos ouvintes e mais tarde redigido em língua inglesa para publicação.

Fonte: RYLE, J. C. Advertencias a las Iglesias. Moral de Calatrava (Ciudad Real): Peregrino, 2003, pp. 28-35.

Traduzido do espanhol por F.V.